A gente já falou algumas vezes na Divergent Beats sobre a voz e a artista esplêndida que é Nay Porttela, e talvez por isso seja tão bonito encontrá-la novamente justamente em uma música que fala sobre reencontro. Agora, ela chega com “Plano B” e começa a abrir diante de nós as primeiras portas de um novo universo artístico, um projeto em que música, arquitetura, imagem, memória e identidade parecem existir dentro do mesmo espaço. E bastam os primeiros segundos para reconhecer aquilo que sempre nos encantou nela: essa maneira tão particular de juntar a delicadeza da MPB com uma linguagem contemporânea, quase pop, enquanto sua voz entra devagar pelo ouvido e, quando percebemos, já entrou completamente dentro da gente.
“Plano B” antecede o quarto álbum de estúdio autoral de Nay, projetado para o início do próximo ano, mas existe uma história muito anterior ao disco acontecendo aqui. A cantora e compositora goianense morou em Brasília a partir de 2017 e foi justamente nesse período que reencontrou uma parte de si que, de alguma maneira, havia desaparecido.
Antes da mudança, Nay havia passado aproximadamente seis anos sem cantar ou tocar piano.
Seis anos.
É muito forte pensar que uma pessoa cuja voz hoje parece ocupar o espaço com tamanha naturalidade tenha vivido tanto tempo distante da música a ponto de quase esquecer que aquela dimensão fazia parte de sua própria identidade. E “Plano B” nasce justamente desse retorno. Não é simplesmente voltar a cantar. É voltar para alguma coisa dentro de si que você nem tinha percebido que havia perdido.
Por isso existe um momento aparentemente tão simples na música que ficou profundamente com a gente: “Já faz muito tempo.”
A frase volta, insiste, reaparece, e cada vez parece carregar um pouco mais de significado. “Já faz muito tempo” pode ser distância, saudade, transformação, reconhecimento. Pode ser olhar para quem você era e perceber quanto aconteceu no intervalo. No caso de Nay, existe ainda uma relação direta com esse reencontro com a música, descrito por ela como uma recuperação de uma memória cuja perda sequer havia percebido.
É lindo porque muda completamente nossa maneira de ouvir a faixa.
E existe outra imagem fundamental nessa história: “a queda livre que é ser jovem”. Nay conecta essa juventude ao momento em que teve coragem de escolher outro caminho e se estabelecer diante do desconhecido. Talvez poucas imagens sejam tão precisas para descrever essa fase da vida em que a gente toma decisões gigantes sem ter qualquer garantia de que existe alguma coisa esperando lá embaixo.
Musicalmente, “Plano B” encontra o espaço perfeito para contar essa história.
Existe samba-jazz, existe MPB, existe uma elegância próxima da bossa nova e, na nossa escuta, existe também uma sensibilidade pop que torna tudo extremamente imediato. O arranjo permanece minimalista, construído com violão pensado a partir da linguagem de João Gilberto, piano, contrabaixo e bateria, enquanto a própria Nay assume a direção musical.
Mas é impossível falar dessa música sem voltar para a voz.
A voz de Nay Porttela é linda justamente porque não precisa disputar atenção com aquilo que está ao redor. Ela entra na música, entra no arranjo, entra no ouvido e parece diminuir a distância entre quem canta e quem escuta. Existe intensidade sem necessidade de excesso, suavidade sem fragilidade e uma capacidade muito particular de fazer com que cada palavra pareça estar sendo entregue diretamente para você.
Só que “Plano B” vai ainda além da música.
Nay é também formada em moda e, antes mesmo de escrever a faixa, já imaginava seu universo visual. Seu fascínio pela arquitetura de Oscar Niemeyer e pela paisagem de Brasília tornou-se parte fundamental do projeto. Ela começou criando croquis e desenhos técnicos, desenvolveu o próprio figurino à mão e levou essa concepção para um ensaio realizado no Plano Piloto.
Isso nos deixa especialmente curiosos pelo próximo álbum porque revela uma artista pensando não apenas em músicas isoladas, mas em um universo completo.
Arquitetura, moda, fotografia e composição começam a conversar entre si. Brasília deixa de funcionar apenas como cenário e passa a representar uma fase fundamental da vida de Nay: o lugar onde uma jovem chegou diante do desconhecido e, no meio dessa queda livre, encontrou novamente a música.
Talvez seja justamente por isso que o título “Plano B” seja tão interessante.
Normalmente pensamos em um plano B como aquilo que fazemos quando o plano original fracassa. Aqui, porém, existe algo muito mais bonito: e se aquilo que parecia ser uma alternativa acabar nos devolvendo para quem realmente somos?
Nay Porttela continua sendo uma daquelas artistas que queremos acompanhar de perto porque existe evolução sem perda de identidade. Já conhecíamos sua delicadeza, sua força interpretativa e essa voz extraordinária. Agora começamos a enxergar uma construção ainda maior ao redor dela.
Se “Plano B” é somente a primeira porta desse novo universo, queremos muito saber o que existe depois.
Porque “já faz muito tempo” pode falar sobre tudo aquilo que ficou para trás.
Mas Nay parece estar olhando, cada vez mais, para tudo aquilo que ainda está por vir.




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