Tivemos a grande honra de estar presentes, no dia 26 de setembro, no show de Danillo Garcez & Ventocais na Freedom Music, em Aracaju, uma noite que contou também com a participação de Vico Fontes, artista que já passou pelas páginas da Divergent Beats e cujo EP também tivemos o prazer de conhecer por aqui. E existem shows que simplesmente confirmam aquilo que sentimos escutando um trabalho em casa; outros conseguem ir além, transformar as músicas, dar corpo às palavras e fazer a gente sair do lugar ainda tentando processar o que acabou de acontecer. Foi exatamente assim com Danillo Garcez & Ventocais. Ficamos chocados — no melhor sentido possível.

Porque existe música boa, existe banda boa e existe aquele momento em que você percebe, diante do palco, que essas pessoas sabem exatamente o que estão fazendo. As composições já carregam uma força enorme, as letras são maravilhosas, mas ouvir a voz de Danillo ao vivo acrescenta uma dimensão difícil de explicar. Ela ocupa o espaço, cresce dentro das músicas e, em vários momentos, emociona por dentro, daquele jeito que não precisa pedir licença.
Mas antes do palco veio Rosa Afim.
E bastaram os primeiros instantes de “Tudo é Mar” para entendermos que alguma coisa muito especial estava acontecendo. Você entra em um sonho sonoro, quase um sonho visível, como se melodia, palavras e imagens começassem a existir juntas. Existe uma construção melódica que entra imediatamente na cabeça e permanece ali, mas não de maneira fácil ou descartável. Ela abre uma porta para o universo que Danillo e a Ventocais constroem ao longo das quatro faixas.
“Tudo é Mar” nasce de uma pergunta extremamente humana: quantas vezes o medo nos impede de tentar antes mesmo de sabermos se conseguiríamos? A composição trabalha contradições — olhar e não ver, sofrer e viver, tudo e nada — enquanto uma base influenciada pelo baião encontra referências que passam por Marku Ribas e Jorge Ben Jor. Até que toda aquela inquietação parece desembocar no mar, como se aquilo que parecia impossível de organizar finalmente encontrasse movimento.
E talvez movimento seja uma boa palavra para entender Rosa Afim.
Danillo Garcez, ex-vocalista do Origami Aquém e compositor de “Pensamentos que me levam a você”, encontra agora na Ventocais, quinteto formado em Aracaju, um espaço para construir uma música profundamente brasileira sem transformá-la em algo previsível. MPB, bossa nova, baião, jazz, soul e R&B convivem naturalmente. Não existe a sensação de uma banda tentando provar quantos gêneros conhece; existe uma banda entendendo essas linguagens e fazendo todas elas respirarem dentro da própria identidade.
Em “Sensação do Mundo”, a MPB encontra o samba sob uma forte referência de Emílio Santiago, enquanto a nostalgia aparece sem aprisionar a música no passado. Existe saudade, sim, mas também existe aquela maturidade dolorosa de compreender que podemos sentir falta de alguma coisa e ainda assim escolher continuar em paz.
“Incendiar” muda novamente a temperatura. Água e fogo se atravessam numa composição sobre desejo, enquanto o soul flerta com o rock e a letra entra naquele espaço perigosamente íntimo entre querer e precisar. São imagens simples que ganham força justamente porque a Ventocais sabe construir atmosfera ao redor delas.
Até chegarmos à faixa-título.
“Rosa Afim” entende que amar nunca significou viver sem dor. Com referências no soul e no jazz, especialmente em nomes como Cassiano e Sandra de Sá, a música coloca esses sentimentos no mesmo espaço sem tentar resolver a contradição. Afinal, como a própria composição lembra, “amor rima com dor”. E existe alguma coisa muito bonita em um EP que não utiliza essa constatação para desistir do sentimento, mas justamente para continuar acreditando nele.
É por isso que assistir a essas músicas ganhando vida diante da gente na Freedom Music foi tão especial.
No disco já existe técnica, sensibilidade e identidade. Ao vivo, existe presença.
A voz de Danillo é ainda maior do que imaginávamos. A Ventocais transforma as composições em algo físico, e aquilo que escutamos no EP deixa de existir apenas dentro dos fones. Você vê a música acontecendo diante de você. Percebe a banda respirando junta. Entende por que determinadas melodias parecem tão naturais: existe domínio, mas existe também prazer em tocar.
E ter Vico Fontes participando daquela noite criou ainda outra conexão com essa cena sergipana que a Divergent Beats vem observando com cada vez mais atenção. Aracaju continua mostrando que existe uma música autoral viva, sofisticada, inquieta e profundamente própria sendo construída ali.
E a história continua. Danillo Garcez & Ventocais já têm o próximo lançamento marcado: “Promessas de Orfeu” chega em 30 de outubro.
pre-save: https://ditto.fm/promessas-de-orfeu
Depois de Rosa Afim e, principalmente, depois de testemunhar a banda ao vivo, a curiosidade para saber o que vem depois ficou ainda maior.
Porque algumas bandas você escuta e gosta.
Outras você vê no palco e entende.
Danillo Garcez & Ventocais fizeram a gente viver as duas coisas.




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