A gente conhece Martin e Os Martírios. Já falamos sobre eles diferentes vezes aqui na Divergent Beats, já entramos em contato com essa maneira tão particular que a banda tem de transformar cotidiano, sentimentos, pequenos acontecimentos e contradições em música e, justamente por isso, existia uma curiosidade enorme para descobrir qual seria o próximo passo. Agora eles finalmente chegam com O Último Raio, um EP de apenas três faixas, mas três faixas que bastam para demonstrar, mais uma vez, a identidade gigantesca que essa banda construiu. Porque existe algo que Martin e Os Martírios sabe fazer muito bem: colocar força dentro da música sem precisar escolher entre força, poesia, ironia ou vulnerabilidade. Tudo pode existir ao mesmo tempo.
Produzido por Lucas Hanke e com lançamento marcado para 25 de setembro pelo Selo da Marquise 51, O Último Raio sucede o álbum O Azar Está Aí Para Acontecer e reúne “Sim Eu Vou”, “Impostor” e “Polissemia”. Três músicas diferentes em suas atmosferas, mas conectadas por algo muito maior do que simplesmente pertencerem ao mesmo EP. Existe uma narrativa atravessando desejo, fracasso, inquietação e ambiguidade, como se cada faixa observasse de um ângulo diferente essa experiência extremamente confusa que é tentar existir enquanto lidamos com nós mesmos.
E talvez seja justamente por isso que três músicas sejam suficientes.
Não existe aqui aquela sensação de um projeto curto que precisava de mais faixas para completar alguma coisa. O Último Raio parece entender perfeitamente seu tamanho. Cada música tem espaço para construir seu próprio imaginário, suas próprias imagens e sua própria personalidade, enquanto a escrita funciona como uma espécie de tecido conectando tudo. A ironia aparece, a poesia aparece, as contradições aparecem e aquela fluidez tão característica da banda continua transformando situações aparentemente comuns em algo muito maior.
Nós poderíamos escolher detalhes das três faixas para ficar falando durante horas, porque as três são icônicas à própria maneira, mas existe um momento de “Sim Eu Vou” que imediatamente ficou tatuado na nossa experiência com esse EP.
A música fala sobre querer “o gosto da rua” e constrói uma sequência de imagens envolvendo o luar, o calor e o suor das pessoas.
Que coisa absurda.
Porque a gente não está simplesmente lendo palavras. A gente sente essas palavras. Existe temperatura nelas, existe corpo, existe cheiro, existe desejo, existe uma rua acontecendo ao nosso redor. É uma escrita que quase transforma o abstrato em físico. Você consegue imaginar aquela noite, aquelas pessoas, aquela vontade de estar no meio de tudo e experimentar a vida com uma intensidade quase exagerada.
E isso diz muito sobre Martin e Os Martírios.
Existe uma capacidade muito particular na banda de encontrar imagens que parecem estranhas durante um segundo e, logo depois, fazem completo sentido emocional. Não é poesia tentando parecer poesia. É uma maneira de escrever que entende que sentimentos nem sempre precisam ser explicados literalmente. Às vezes, um gosto, uma rua, um luar e um corpo dizem muito mais sobre desejo do que qualquer declaração direta conseguiria dizer.
Ao lado de “Sim Eu Vou”, “Impostor” e “Polissemia” ampliam essa pequena trilogia e ajudam a revelar outras faces do mesmo desconforto humano. O próprio título “Polissemia” já carrega a ideia de multiplicidade de sentidos, algo que conversa lindamente com um trabalho interessado justamente naquilo que não possui uma resposta única. Desejamos uma coisa e fazemos outra. Queremos viver intensamente e, ao mesmo tempo, precisamos lidar com aquilo que existe dentro da nossa cabeça. Fracassamos, tentamos novamente, interpretamos palavras, interpretamos pessoas e frequentemente interpretamos a nós mesmos de maneira completamente errada.
Talvez viver seja também um exercício permanente de ambiguidade.
Formada em 2022, Martin e Os Martírios vem construindo seu espaço dentro da cena independente do Rio Grande do Sul através de shows, festivais e, principalmente, de uma identidade autoral que se torna cada vez mais reconhecível. O Último Raio representa mais um movimento nessa trajetória, inclusive na vontade de ampliar a circulação da banda para além do circuito regional. E existe algo muito bonito em acompanhar um grupo que não parece interessado em abandonar suas particularidades para crescer; pelo contrário, quanto mais avança, mais parece entender aquilo que o torna diferente.
O lançamento será celebrado no próprio dia 25 de setembro, no Espaço 512, em Porto Alegre, com abertura da banda Shaun. E faz sentido que essas músicas encontrem também o palco, porque existe uma fisicalidade enorme em O Último Raio. Mesmo quando estamos prestando atenção nas palavras, sentimos que elas querem sair da gravação, ganhar corpo, suor, volume e gente ao redor.
Talvez seja por isso que aquela passagem de “Sim Eu Vou” tenha ficado tão forte para nós.
Porque ela resume alguma coisa que atravessa o EP inteiro: a vontade de sentir.
Sentir mesmo quando isso significa falhar. Desejar mesmo sabendo que desejo também pode machucar. Procurar respostas sabendo que uma palavra pode carregar vários significados. Entrar na rua, olhar para o luar, encontrar outras pessoas e continuar tentando compreender aquilo que acontece dentro da gente.
São apenas três faixas.
Mas depois de escutar O Último Raio, três parecem exatamente o necessário para Martin e Os Martírios lembrar a gente de uma coisa que já sabíamos:
essa banda é incrível.




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