A gente já tinha colocado “Questão de fogo”, da Oblomov, em um dos nossos destaques, mas agora chegou o momento de falar realmente sobre esse álbum. Porque uma coisa é apresentar um disco. Outra é sentar, apertar o play e perceber que existe ali um universo inteiro acontecendo diante de você. “Questão de fogo” é uma bomba sonora. Uma daquelas bombas boas, que explodem aos poucos e continuam reverberando depois que a última faixa termina.

Existe alguma coisa muito setentista na Oblomov. Existe psicodelia, existe aquele rock que parece ter sido encontrado em alguma fita antiga, mas existe também uma identidade absolutamente presente, contemporânea e inquieta. É música que olha para trás sem jamais querer voltar para lá. As guitarras, as camadas, os ruídos, as batidas e aquelas palavras que aparecem, desaparecem e voltam a se repetir criam uma espécie de confusão maravilhosa. E você simplesmente entra. Não tenta necessariamente entender tudo. Você deixa a música te levar.

Formada em 2017, em São Simão, Goiás, por Jô Queiroz e José Eduardo, a Oblomov nasceu de sessões de improvisação e de uma paixão pelo rock clássico. Desde então, a banda foi crescendo, mudando de forma e atravessando diferentes cenas, até se estabelecer em Uberlândia, Minas Gerais. Hoje, o projeto reúne uma formação flexível com Luviri, José Silva, Mikael e Rafael Bonolo, mantendo justamente essa ideia de que a música pode mudar de acordo com aquilo que cada composição pede.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de Questão de fogo.

Depois dos EPs Oblomov (2019) e Oblomov II (2021), ambos produzidos de maneira independente, a banda chega ao primeiro álbum de longa duração carregando referências que passam pela Tropicália, Clube da Esquina, psicodelia nordestina, indie rock e rock independente. Só que nada disso aparece como uma lista de influências. Tudo é absorvido, desmontado e reconstruído dentro da identidade da banda.

Oblomov não parece estar tentando fazer uma música específica. Parece estar tentando descobrir até onde uma música pode ir.

E isso aparece também na própria maneira como o disco foi construído. A banda assumiu a produção ao lado de Vitória Saiago e transformou limitações de equipamento e estrutura em possibilidades criativas. Instrumentos trocam de mãos, músicos assumem funções diferentes, arranjos se reorganizam e até ruídos, sons da natureza, efeitos e pequenas surpresas entram como parte da composição. É quase como assistir a um grupo brincando dentro de um laboratório — só que o experimento funciona.

A faixa-título talvez seja a síntese perfeita dessa filosofia. Dividida em três momentos, começa com um lirismo melancólico, quase inseguro, e lentamente cresce até virar uma explosão de texturas. “No fim, tudo vira questão de fogo: de reagir e fazer acontecer.” E essa frase poderia facilmente servir como manifesto para o álbum inteiro.

Porque Questão de fogo fala de coisas muito diferentes. Amor, cotidiano, autoconhecimento, sonhos, fantasias, identidade e transformação aparecem ao longo das dez faixas. Dos Trilhos, por exemplo, parte da experiência de Jô Queiroz como pessoa não-binária. Dentro da Maçã inventa um espaço quase fantástico, enquanto Amei Demais conta com Dinho Almeida, do Boogarins. Pavão Azul recebe J. G. Joshua, e Cabeça de Pedra traz a participação do multiartista Clóvis Cosmo.

É um álbum que nunca parece completamente satisfeito em permanecer no mesmo lugar.

Até a capa conta essa história. Criada por Diany Dias, ela retrata a sala do apartamento onde nasceram muitos dos ensaios, conversas e experimentações da banda. Aquele espaço doméstico virou abrigo criativo, ponto de encontro e laboratório. E agora aparece transformado em imagem, como se a própria casa tivesse virado personagem do disco.

Mas, entre todas essas viagens, foi “Cansade” que mais ficou conosco.

A música começa com uma vontade aparentemente simples: “ai que vontade que me dá de ver a minha gente bem”. E então tudo começa a pesar. O fogo consumindo os afetos, o medo sentado à mesa, o gelo derretendo no balcão. Existe uma sensação de espera, de cansaço, de querer que alguma coisa aconteça enquanto ninguém sabe exatamente o que precisa acontecer.

E quando chega aquele “Tô cansado”, a frase parece pequena demais para carregar tudo o que veio antes. Mas justamente por isso funciona.

Porque Cansade não transforma o cansaço em uma palavra bonita. Ela transforma o cansaço em atmosfera. Você sente o peso antes mesmo de conseguir explicar por quê.

E é aí que Oblomov ganha a gente.

Questão de fogo é experimental sem parecer uma experiência acadêmica. É psicodélico sem perder o coração. É nostálgico sem viver de nostalgia. É um disco que deixa você um pouco desorientado — e talvez essa seja exatamente a intenção.

Quando termina, a vontade não é simplesmente procurar outra coisa para ouvir.

É apertar play novamente.

E entrar outra vez naquele incêndio.



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