A gente já falou de Leo Santi por aqui. Quando “Cores no Jardim”, primeiro single de seu álbum de estreia, chegou até nós, a gente se apaixonou por aquela capacidade tão bonita que o artista tem de olhar para aquilo que parece pequeno, cotidiano, quase banal, e encontrar ali alguma coisa que merece virar música. Agora ele chega com “Samba da Pedra” e reforça ainda mais uma impressão que já tínhamos: estamos diante de um artista que entende profundamente a força de fazer música brasileira sem precisar encaixá-la dentro de uma fórmula.

“Samba da Pedra” é gostosa do começo ao fim. É aquele sambinha que imediatamente traz uma sensação carioca para a gente, mesmo vindo de um artista de Taubaté, no interior de São Paulo. Tem calor, tem balanço, tem corpo, mas existe alguma coisa diferente acontecendo ali. Leo pega elementos que reconhecemos, desconstrói, experimenta, brinca com as texturas e constrói uma música que parece familiar sem nunca soar óbvia. Você escuta e já quer entrar no ritmo, mexer o corpo e fazer parte daquilo.

E talvez uma das coisas mais bonitas seja perceber que essa sensação não nasce apenas da melodia.

Logo no começo, Leo canta: “Tem uma pedra que me carrega / E eu não sei pra onde vai”. É uma inversão tão simples quanto bonita: normalmente somos nós que carregamos as pedras, os pesos, as preocupações, aquilo que acumulamos enquanto seguimos pela vida. Aqui, é a pedra que carrega. A gente se entrega ao movimento sem necessariamente saber para onde está indo.

A própria proposta de “Samba da Pedra” passa por essa vontade de desacelerar. Entre problemas, compromissos, trabalho e todas as pequenas urgências que parecem disputar nossa atenção diariamente, Leo fala sobre aquilo que tantas vezes deixamos para depois: sentar perto de quem amamos e simplesmente viver aquele instante.

Talvez seja justamente por isso que a faixa tenha nos transportado tão facilmente para uma imagem específica. A gente se imaginou sentado, apoiado em uma pedra, vendo o pôr do sol, sem precisar chegar a lugar nenhum. E quando Leo canta “Sentado na pedra com meu amor”, essa imagem parece ganhar ainda mais força. Não existe necessidade de transformar aquele momento em algo grandioso. O grandioso já está ali.

É uma característica que começa a ficar muito clara dentro do trabalho de Leo Santi. Ele consegue encontrar poesia no cotidiano sem transformar essa poesia em algo distante. Em “Cores no Jardim”, havia esse olhar para fora, para aquilo que nos cerca; agora, “Samba da Pedra” parece virar o corpo para dentro, aproximando a lente das pessoas que caminham ao nosso lado.

Musicalmente, a canção acompanha perfeitamente essa ideia. Percussão, bateria e texturas acústicas constroem um samba-rock desconstruído, experimental e caloroso, conduzido sem pressa. A faixa não parece querer correr para lugar algum. Ela encontra seu próprio tempo e convida quem está ouvindo a fazer o mesmo.

Leo Santi é músico e produtor de Taubaté e prepara agora seu primeiro álbum, Mormaço da Gente, trabalho que também contará com a participação de Thiago França. A banda que acompanha o artista é formada por amigos e parceiros de outros projetos, enquanto Vitor Hirtsch assume a mixagem e masterização. O disco passou pelos estúdios Movido, Kina, Havok Lab, André Cortada e Bangue Estúdio, construindo uma paleta orgânica que já começa a se revelar através desses primeiros lançamentos.

E existe algo no próprio nome Mormaço da Gente que, depois de ouvir “Cores no Jardim” e “Samba da Pedra”, começa a fazer ainda mais sentido. Existe calor nessas músicas. Existe proximidade. Existe essa vontade de transformar cenas comuns em experiências que parecem pertencer a todos nós.

“Samba da Pedra” não precisa gritar para chamar nossa atenção. Ela chega devagar, senta ao nosso lado e começa a tocar. Quando percebemos, estamos acompanhando o ritmo, imaginando paisagens e pensando nas pessoas com quem também gostaríamos de simplesmente sentar em algum lugar e assistir ao tempo passar.

Talvez seja justamente essa a grande força de Leo Santi neste momento: fazer música brasileira com liberdade suficiente para deixar samba, rock, experimentação, afeto e cotidiano coexistirem sem que nenhuma dessas coisas precise disputar espaço.

Depois de “Cores no Jardim”, nossa curiosidade pelo álbum já era enorme. Depois de “Samba da Pedra”, aumentou ainda mais.

Leo Santi, a gente não vê a hora de ouvir Mormaço da Gente inteiro. Porque, se essas duas primeiras faixas forem um sinal do que está chegando, esse álbum de estreia tem tudo para ser uma bomba.

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