O Brasil continua entregando cada vez mais bandas e artistas que conseguem fazer uma coisa que, para a gente, é uma das mais interessantes dentro da música: entrar em um universo musical que já conhecemos e, ao mesmo tempo, fazer parecer que estamos descobrindo alguma coisa completamente nova. Existem referências, memórias e sonoridades que reconhecemos imediatamente, mas elas não aparecem como uma tentativa de reproduzir o passado. Servem como ponto de partida para construir alguma coisa que pertence ao agora.
E foi exatamente isso que aconteceu quando apertamos o play em “[001] SEM LICENÇA”, primeiro lançamento do Perfil Privado.
A gente ficou de pele arrepiada.
Existe alguma coisa nessa música que imediatamente nos transportou para o final dos anos 90 e, principalmente, para o começo dos anos 2000. Para aquele período em que o rock alternativo e a música eletrônica se encontravam de maneiras cada vez mais interessantes, quando guitarras, sintetizadores, distorções e texturas digitais podiam ocupar o mesmo espaço sem que ninguém precisasse decidir exatamente onde uma música deveria estar.
É muito do universo musical com o qual nós, da Divergent Beats, crescemos.
Só que “[001] SEM LICENÇA” não vive de nostalgia. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças dessa estreia.
O Perfil Privado é um projeto musical brasileiro que decidiu fazer algo particularmente interessante em um momento no qual parece que precisamos conhecer absolutamente tudo sobre quem está por trás da música: seus integrantes permanecem anônimos.
E não estamos falando de anonimato como estratégia para simplesmente gerar mistério.
Aqui, ele funciona como ferramenta artística. O Perfil Privado parte da relação entre identidade, exposição e música para questionar o tamanho que a personalidade do artista passou a ocupar dentro da própria experiência de escutar uma obra. Em um tempo no qual frequentemente conhecemos o rosto, a rotina, as opiniões, os vídeos e até os hábitos de alguém antes mesmo de apertarmos o play, o projeto propõe praticamente o caminho contrário.
Primeiro, escute.
Primeiro, sinta.
Depois, talvez, faça suas próprias perguntas.
Essa ideia atravessa também a linguagem construída pelo projeto, na qual música, imagem e comunicação fazem parte de um mesmo universo. Fotografias, registros e vestígios substituem a necessidade de colocar rostos no centro de tudo. A obra passa a ocupar o espaço que normalmente reservamos à personalidade.
E que maneira absurda de começar essa conversa.
Musicalmente, “[001] SEM LICENÇA” parte do rock alternativo e incorpora elementos eletrônicos, guitarras densas, texturas e contrastes entre agressividade e delicadeza. Foi justamente nessa mistura que sentimos uma referência impossível de ignorar durante nossa primeira audição: existe um certo espírito de Daft Punk atravessando alguns momentos.
Não como cópia. Não como exercício nostálgico. É uma sensação. Uma memória sonora que aparece no meio de uma música que tem personalidade própria.
E aí está aquilo que mais nos pegou: enquanto a produção nos fazia viajar no tempo, a voz e as palavras nos traziam de volta para o presente.
Logo no começo, aparece uma imagem fortíssima: “Sinto o novo tempo chegar / sinto o novo céu a desabar”. A letra continua carregando sobre nossas cabeças o peso de mundos e a incerteza sobre o quanto podemos mudar de um dia para o outro.
É lindo porque existe uma contradição gigantesca ali.
O novo tempo chegou, mas ele não necessariamente chega leve.
Mudar também pesa. O desconhecido também assusta. E aquilo que anuncia um começo pode carregar consigo a sensação de que um mundo inteiro está desabando.
A produção acompanha exatamente essa tensão. Existe agressividade, mas existe delicadeza. Existe densidade, mas existe movimento. Existe passado, mas existe uma identidade extremamente ligada ao presente. E quanto mais a música avança, mais percebemos que essa dualidade não está ali por acaso.
Até o conceito do Perfil Privado parece conversar com isso.
Estamos vivendo um período em que artistas precisam constantemente existir para além da própria arte. Precisam aparecer, produzir conteúdo, mostrar o rosto, contar histórias, transformar personalidade em comunicação. Então aparece um projeto que preserva deliberadamente a identidade de seus integrantes e diz, de certa forma: olhe para aquilo que estamos criando.
Som. Imagem. Registro.
O resto permanece privado.
Talvez por isso “[001] SEM LICENÇA” tenha nos causado uma impressão tão grande. A gente entrou pela nostalgia daqueles sons com os quais crescemos, encontrou rock alternativo, eletrônica e uma atmosfera que nos levou imediatamente aos anos 2000, mas saiu da experiência pensando sobre algo extremamente contemporâneo: quanto precisamos saber sobre um artista para sermos atravessados por sua música?
No caso do Perfil Privado, por enquanto, a resposta parece bastante simples.
Nada além daquilo que eles escolheram nos entregar.
Em outubro de 2026, “[001] SEM LICENÇA” inaugura oficialmente a trajetória pública do projeto. E existe algo quase perfeito no fato de uma banda que escolhe permanecer escondida começar justamente com uma música que anuncia a chegada de um novo tempo.
Nós não sabemos quem está por trás do Perfil Privado.
Mas depois dessa estreia, queremos muito descobrir até onde sua música pode chegar.




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