Não tem coisa mais interessante do que escutar uma faixa e entrar completamente dentro do mundo que foi criado por ela. Foi exatamente isso que aconteceu quando colocamos play em “Bicho”, novo single de raphaelö.
Em poucos segundos, você já percebe que não está apenas ouvindo uma música. Está atravessando uma porta para um universo onde pesadelos, trauma, beleza, caos e transformação coexistem no mesmo espaço. E talvez seja justamente essa capacidade de construir atmosferas tão completas que faz de raphaelö um dos projetos mais interessantes da música alternativa brasileira neste momento.
Quem acompanha a Divergent Beats sabe que já tínhamos ficado fascinados por “Monstros”, escolhido entre os nossos destaques da semana, e também por “Fantasma”, que abriu o caminho para o álbum de estreia “Mystique”. Agora, com “Bicho”, o artista carioca entrega o terceiro e último capítulo dessa trilogia antes do lançamento do disco, e a sensação é de que cada lançamento amplia ainda mais a identidade artística que ele vem construindo.
Baseado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, raphaelö vem desenvolvendo desde 2021 uma linguagem muito própria, misturando pós-punk, darkwave, eletrônica e uma estética gótica retrofuturista que soa rara dentro da música brasileira contemporânea.
Existem referências perceptíveis a nomes como The Cure, Siouxsie and the Banshees, Molchat Doma e Depeche Mode, mas há também algo que nos lembrou Björk em alguns momentos, especialmente na forma como a emoção se mistura com a experimentação sonora. Ainda assim, o mais interessante é que nada disso soa como cópia. Pelo contrário. Tudo parece fazer parte de um universo muito particular, construído com extremo cuidado.
“Bicho” nasce de um pesadelo. Um sonho perturbador onde um animal praticava algo semelhante ao vampirismo, atacando outro até que, ao final da agonia, ambos coexistiam em paz. A partir dessa imagem, raphaelö construiu uma reflexão sobre trauma, sobrevivência e sobre aquilo que permanece em nós depois do caos. Não é uma música sobre a dor em si. É uma música sobre a vida depois da dor. Sobre as marcas que continuam presentes mesmo quando seguimos em frente.
Esse conceito ganha ainda mais força através da produção. O próprio raphaelö assina a composição e a produção da faixa, enquanto YELL, parceiro fundamental na construção sonora de “Mystique”, assume a mixagem e masterização. O resultado é impressionante. Há um peso enorme na bateria eletrônica, sintetizadores ásperos que parecem rasgar o espaço ao redor e vocais que alternam vulnerabilidade e agressividade com uma naturalidade rara. Tudo soa cinematográfico, como se estivéssemos caminhando por uma cidade futurista abandonada, iluminada apenas por néons quebrados e memórias difíceis de esquecer.

O que mais nos chamou atenção foi a forma como a música consegue transformar escuridão em beleza. Existe uma violência emocional em “Bicho”, mas ela nunca se torna gratuita. Ela serve para contar uma história. Serve para criar uma experiência. Serve para fazer o ouvinte sentir.
Um dos momentos que mais ficou conosco acontece quando surge o verso: “o pesadelo então um sonho feliz”. É uma frase simples à primeira vista, mas profundamente poderosa quando colocada dentro do contexto da música. Porque ela fala exatamente sobre aquilo que muitas pessoas vivem após atravessar experiências traumáticas. O pesadelo não desaparece completamente. Ele se torna parte de quem somos. E aprender a conviver com ele pode ser uma forma de sobrevivência.
Essa dualidade atravessa toda a faixa. Existe medo, mas também aceitação. Existe dor, mas também libertação. Existe destruição, mas também reconstrução. E talvez seja justamente por isso que “Bicho” funcione tão bem. Porque não oferece respostas fáceis. Não tenta transformar sofrimento em discurso motivacional. Apenas reconhece sua existência e o coloca em forma de arte.
Também impressiona a coragem de raphaelö em apostar em uma estética que ainda ocupa um espaço relativamente pequeno dentro da música brasileira. Enquanto muitos artistas seguem caminhos mais seguros, ele mergulha sem medo em territórios sombrios, eletrônicos, góticos e experimentais. O resultado não poderia ser mais autêntico.
Depois de “Fantasma”, “Monstros” e agora “Bicho”, fica evidente que “Mystique” tem tudo para ser um dos lançamentos mais interessantes do ano dentro da música alternativa nacional. Se os três singles servem como introdução para aquilo que está por vir, então estamos diante de um artista que encontrou uma identidade própria e sabe exatamente como utilizá-la.
Poucos músicos conseguem transformar um pesadelo em algo tão fascinante. Raphaelö consegue. E faz isso sem perder a sensibilidade, a personalidade e a intensidade que fazem sua música permanecer muito tempo depois que a última nota desaparece.



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