Às vezes basta a capa de um disco para você entender que está prestes a entrar em um mundo que vai te deixar completamente de boca aberta. Foi exatamente isso que aconteceu quando nos deparamos com Spoil, da banda mineira Flourished.

A imagem nos trouxe imediatamente aquela mesma sensação que muitos de nós tivemos nos anos 2000 ao olhar para Coral Fang, dos Distillers, uma capa que acabou se tornando tão icônica quanto controversa. Mas, assim como acontecia naquela época, a capa é apenas a porta de entrada. O que realmente importa é aquilo que vem depois do play. E quando Spoil começa, você percebe rapidamente que não está diante de um álbum comum. Está diante de uma explosão de sentimentos, ruído, honestidade, raiva, vulnerabilidade e humanidade.

Direto de Itajubá, em Minas Gerais, a Flourished surgiu em 2023 e se consolidou com uma formação composta por Gustavo dos Santos nos vocais e guitarra, Davi Corrá na guitarra e backing vocals, Gabriel Furlan no baixo e Matheus Junqueira na bateria. Juntos, eles criaram uma identidade sonora que mistura a sujeira emocional do grunge, a urgência do punk e o peso esmagador do sludge metal. Mas reduzir a banda apenas a esses rótulos seria injusto. Existe algo muito mais profundo acontecendo aqui.

O próprio nome Flourished já revela essa dualidade fascinante. Traduzido livremente como “floresceu”, poderia sugerir algo bonito, delicado ou otimista. Porém, para a banda, esse florescimento acontece através da raiva. É a raiva de ser julgado, de perder alguém, de ser traído, de viver injustiças, de existir em um mundo que frequentemente parece construído sobre opressões e falhas humanas.

Essa contradição entre beleza e destruição atravessa todo o trabalho da banda e faz de Spoil uma experiência emocionalmente intensa.

O que impressiona é que, em uma época onde grande parte da música pesada parece excessivamente polida, calculada ou preocupada em soar perfeita, a Flourished escolhe o caminho oposto. Tudo aqui soa cru. Tudo soa vivo. Tudo soa perigoso. Existe uma sensação constante de que as músicas podem desmoronar a qualquer momento, mas nunca perdem o controle. Pelo contrário. É justamente essa tensão que torna o álbum tão fascinante.

As letras, escritas integralmente em inglês, refletem tanto conflitos pessoais quanto críticas sociais contundentes. Religião, corrupção, violência policial, injustiças estruturais e dores individuais convivem dentro do mesmo universo. A influência de gigantes como Sepultura aparece não apenas na escolha do idioma, mas também na vontade de transformar experiências locais em algo capaz de dialogar com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.

Talvez uma das coisas mais bonitas em Spoil seja justamente essa capacidade de equilibrar brutalidade e emoção. Porque, sim, este é um álbum agressivo. Muito agressivo. Mas não é uma agressividade vazia. Existe um coração pulsando por trás de cada riff, de cada grito e de cada explosão sonora. Existe uma necessidade urgente de dizer algo.

Foi impossível para nós não ficarmos presos à faixa Slud. Há algo profundamente doloroso e ao mesmo tempo belo quando Gustavo canta: “I can’t wait to be by your side. My disobey makes me bleed. I dive into fire to find you. You never try, but you had me. I’m not wasting my time. I will stay with you until I die.”

Existe romantismo nessas palavras, mas é um romantismo coberto de cicatrizes. Um amor que não chega de mãos dadas com flores ou promessas fáceis. É um amor que atravessa fogo, que sangra, que resiste. E talvez seja justamente isso que faz a música funcionar tão bem. Porque a Flourished entende que as emoções mais verdadeiras raramente são limpas ou organizadas. Elas são caóticas. São contraditórias. São humanas.

Ao longo do disco também percebemos uma banda que não tem medo de experimentar. Influências de drone metal, noise e colagens sonoras aparecem em diferentes momentos, ampliando ainda mais a sensação de desconforto e imersão. Faixas como Orakulum e a impressionante Why Can The Scorch Not Consume The Demons That Lie Within? mergulham em territórios quase cinematográficos, utilizando ruídos, fitas cassete e referências a filmes de terror dos anos 1950 para construir paisagens sonoras que parecem vir diretamente do fim do mundo.

E talvez essa seja a melhor forma de descrever Spoil. Este é um álbum sobre o fim do mundo. Mas não necessariamente o fim literal. É o fim de ilusões. O fim da inocência. O fim da paciência. O fim das máscaras. E ao mesmo tempo é o nascimento de algo novo. De uma identidade artística que já chega extremamente forte.

Mais impressionante ainda é lembrar que este material nasceu de uma filosofia totalmente DIY. As gravações iniciais foram realizadas de forma caseira por Gustavo, utilizando apenas um computador, uma interface de áudio e o FL Studio, enquanto a mixagem e masterização ficaram nas mãos do ex-baixista Bruno Henrique. É o tipo de história que reforça aquilo que sempre acreditamos aqui na Divergent Beats: não é o orçamento que cria grandes obras. É a visão.

Com o primeiro show em São Paulo marcado para agosto e novos materiais sendo preparados em ambiente profissional, a sensação é de que estamos vendo apenas o começo da história da Flourished. E se Spoil já é capaz de causar esse impacto, mal podemos esperar para descobrir até onde essa banda pode chegar.

Porque algumas bandas fazem música pesada. Outras fazem música agressiva. A Flourished faz algo diferente. Eles transformam raiva em arte, desconforto em beleza e caos em identidade. E isso, hoje em dia, é cada vez mais raro.



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