Já falamos anteriormente aqui na Divergent Beats sobre Tijolo quando fomos completamente conquistados por “Gosto de Sol”, uma música tão bonita que parecia existir em algum lugar entre a memória, a poesia e o cinema. Naquele momento, entendemos que Pedro Finco estava construindo algo especial.
Agora, com a chegada de “Y”, álbum de estreia do projeto, essa sensação se transforma em certeza. Este é exatamente o tipo de disco que a música precisa continuar produzindo. Um disco que não tem medo da delicadeza, da experimentação, do silêncio, da construção lenta e da emoção verdadeira.
Escutar “Y” é como abrir um livro e perceber que cada página traz uma paisagem diferente, mas que todas pertencem ao mesmo universo. É um álbum que exige presença do ouvinte. Não porque seja difícil ou inacessível, mas porque existe nele uma riqueza de detalhes que merece atenção. Cada violão, cada respiração, cada camada instrumental e cada palavra parecem ter sido colocados exatamente onde deveriam estar. O resultado é uma obra que consegue ser íntima e expansiva ao mesmo tempo.
Idealizado por Pedro Finco, artista de São Bernardo do Campo, Tijolo nasceu em 2016 como uma banda e, ao longo dos anos, passou por diferentes transformações até se consolidar como projeto solo. Mas existe algo curioso nesse disco: apesar de partir de uma visão profundamente pessoal, “Y” é também um trabalho construído através do encontro.
Produzido por Gustavo Bertoni, da Scalene, o álbum cresce a partir de uma estrutura aparentemente simples, centrada no violão e na canção, mas vai se expandindo gradualmente através das contribuições de diferentes músicos, incorporando sopros, percussões, cordas e arranjos que ampliam constantemente o horizonte emocional das músicas.
Essa construção coletiva é uma das grandes forças do álbum. A presença de músicos como Jay Alves, Tiago Soares, Rodrigo Coelho e Mabu Reis não aparece como mero complemento instrumental. Pelo contrário. Cada participação parece ampliar o universo de cada canção, respeitando sempre aquilo que está no centro de tudo: a composição. Gustavo Bertoni, além de produzir, também participa instrumentalmente ao longo do disco e divide os vocais com Pedro Finco em “Quintais”, ajudando a criar uma unidade sonora que conecta todas as faixas sem que elas percam suas próprias identidades.
O que mais impressiona em “Y” é justamente a forma como ele transforma situações aparentemente simples em algo profundamente emocionante. Muitas dessas músicas nasceram de improvisos, frases ouvidas ao acaso, passagens de som e pequenos acontecimentos do cotidiano.
Nas mãos de Pedro Finco, porém, esses fragmentos se transformam em imagens que parecem falar diretamente com experiências que todos nós já vivemos. Existe uma sensibilidade rara na forma como ele escreve. Suas letras nunca parecem buscar grandes respostas. Elas observam, acolhem, registram e deixam espaço para que cada ouvinte encontre suas próprias interpretações.
Isso fica evidente em “Há Um Lugar”, uma das faixas que melhor representa o espírito do álbum. Quando Pedro canta “Hoje eu vou sorrir e cantar, sorrir, sorrir, soltar minha voz”, existe algo quase desarmante na simplicidade desses versos. Em um mundo cada vez mais acelerado e complexo, ouvir alguém afirmar algo tão simples e tão verdadeiro se torna um gesto poderoso. Não é apenas uma frase bonita. É uma decisão de permanecer sensível.
Mas a faixa que ficou mais profundamente dentro de nós foi “Atrás do Sentir”. Existe algo de absolutamente especial nessa música. O trecho “Despertei, tinha que dormir, vai chover, acho que ouvi trovões. Como vai? Quero te ouvir, fica em paz, estou por aqui, eu sei” possui uma força visual impressionante. Você não apenas escuta essas palavras. Você as vê acontecer. É como assistir a uma cena inteira se formando diante dos olhos. Existe chuva, existe saudade, existe afeto, existe espera. Existe vida.
Talvez seja justamente isso que torna “Y” tão especial. Ele não tenta impressionar através do excesso. Não existe grandiosidade artificial. O álbum emociona porque entende algo fundamental sobre arte: muitas vezes são os pequenos detalhes que permanecem conosco para sempre. Pedro Finco compreende isso perfeitamente e constrói um trabalho que valoriza os espaços vazios, os silêncios e as nuances tanto quanto valoriza os momentos de expansão sonora.
Também é impossível ignorar a importância de São Bernardo do Campo dentro desse trabalho. A cidade não aparece apenas como cenário, mas como parte da identidade do disco. As trocas entre músicos, os encontros criativos e a rede de artistas que participa direta ou indiretamente da construção do álbum transformam “Y” em um retrato sensível da força criativa que existe atualmente no ABC Paulista.

Ao final da audição, fica uma sensação rara. A sensação de ter encontrado um álbum que continuará crescendo dentro de nós durante muito tempo. Um disco que revela novos detalhes a cada retorno, novas emoções a cada escuta e novos significados conforme a vida acontece. Poucos trabalhos conseguem alcançar esse nível de profundidade sem perder a leveza. “Y” consegue.
E é por isso que podemos dizer sem qualquer exagero: este é um dos álbuns mais bonitos lançados em 2026. Não apenas pela qualidade das composições, dos arranjos ou da produção impecável de Gustavo Bertoni, mas porque nos lembra de algo que muitas vezes esquecemos. A música ainda pode ser um lugar de encontro. Ainda pode ser um lugar de escuta. Ainda pode ser um lugar onde sentimos, sem medo, tudo aquilo que somos.



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