Nós da Divergent Beats tivemos a grande oportunidade de escutar o álbum de estreia da Chico Balanceado em primeira mão. E, para ser completamente honestos, foi aquilo que os italianos chamam de fulmine a ciel sereno: algo que chega de repente, sem aviso, e muda completamente o panorama ao redor. Porque “Pegue O Que Quiser” é exatamente esse tipo de álbum. Um daqueles discos que terminam e imediatamente fazem você apertar o play novamente.
Não porque você não entendeu o que acabou de ouvir, mas porque existe sempre um detalhe novo, uma frase escondida, uma melodia inesperada ou uma emoção diferente esperando para ser descoberta.
Vivemos uma época em que muitos lançamentos passam rapidamente pelos nossos ouvidos. Escutamos uma vez, gostamos e seguimos em frente. Mas existem alguns discos que pedem permanência. Que exigem convivência. Que parecem crescer a cada audição. “Pegue O Que Quiser” pertence exatamente a essa categoria.
Formada por Pedro Koti (voz e guitarra), Rafael Lanzarini (baixo) e Thiago Oliveira (voz e bateria), a Chico Balanceado vem construindo sua identidade dentro da cena alternativa curitibana desde 2024, misturando rock alternativo, MPB, psicodelia setentista, blues e influências progressivas em uma linguagem que soa extremamente própria. O mais interessante é que essas referências nunca aparecem como uma simples soma de inspirações. Elas são absorvidas e transformadas em algo que possui personalidade própria.
Durante a audição do álbum, diversas vezes tivemos aquela sensação curiosa de estar ouvindo algo familiar e completamente novo ao mesmo tempo. Em determinados momentos, algumas texturas remetem ao rock alternativo dos anos 90. Em outros, existe uma brasilidade elegante que atravessa os arranjos. Em seguida, a banda encontra um caminho totalmente próprio, mostrando que a nostalgia nunca é o destino final, mas apenas uma das cores presentes na pintura.
O disco reúne dez faixas que mergulham em questões que fazem parte da experiência de praticamente qualquer pessoa adulta: amor, inseguranças, desemprego, dúvidas existenciais, amadurecimento, relações humanas e aqueles questionamentos que surgem quando tentamos entender qual é o nosso lugar dentro de um mundo cada vez mais confuso. O grande mérito da Chico Balanceado está em conseguir abordar todos esses temas sem cair no excesso de dramatização. Existe profundidade, mas também existe leveza. Existe reflexão, mas também existe humor. Existe dor, mas existe igualmente esperança.
Talvez isso tenha relação direta com o próprio processo de criação do álbum. Foram aproximadamente três anos de construção, sendo quase dois deles dedicados ao trabalho em estúdio. Um período longo o suficiente para que as músicas amadurecessem junto com seus criadores.
Algumas composições consideradas indispensáveis acabaram ficando de fora. Outras nasceram já nos momentos finais e se tornaram fundamentais para a narrativa do disco. É justamente esse tipo de processo orgânico que faz “Pegue O Que Quiser” soar tão vivo.
A produção musical assinada por Eduardo Rozeira merece destaque especial. Parceiro da banda desde o início da trajetória do trio, Rozeira se tornou um elemento fundamental na construção estética do álbum. O resultado é uma produção que respeita a identidade da banda, mas que também amplia suas possibilidades sonoras. Tudo parece estar exatamente onde deveria estar.
As participações de Guilherme Souza, Audryn e Steh também ajudam a expandir esse universo musical sem desviar o foco da essência do grupo. Pelo contrário. Elas enriquecem a experiência e reforçam a sensação de que estamos diante de um trabalho pensado com extremo cuidado.
Entre as dez faixas, uma em especial ficou profundamente marcada em nós: “Comemorar”. Talvez porque ela consiga sintetizar de forma perfeita aquilo que torna a Chico Balanceado tão especial.
Existe um trecho que diz:
“Sei que um dia vai passar, um dia eu vou parar de me importar e esse algo que parece me matar vai virar lembrança que sempre vou guardar.”
É impossível não se identificar com essas palavras.
Porque todos nós carregamos alguma dor que parece definitiva enquanto está acontecendo. Todos nós já vivemos situações que pareciam impossíveis de superar. E, de alguma forma, seguimos em frente. O que antes parecia insuportável se transforma em memória. Em aprendizado. Em parte da nossa história.
A beleza dessa letra está justamente na honestidade. Não existe pose. Não existe personagem. Existe apenas alguém tentando entender a própria vida através da música.
E então chega o refrão:
“Eu só queria comemorar uma vitória pra celebrar.”
Uma frase simples, mas carregada de significado. Porque, no fundo, todos nós queremos isso. Queremos celebrar alguma coisa. Queremos sentir que os esforços fizeram sentido. Queremos encontrar motivos para continuar acreditando.
Essa honestidade atravessa o álbum inteiro.

“Pegue O Que Quiser” não tenta impressionar através de fórmulas grandiosas. Ele impressiona porque é verdadeiro. Porque foi construído por três músicos que passaram anos tentando entender quem eram artisticamente e conseguiram transformar esse processo em música.
O resultado é um disco que marca não apenas o início de uma trajetória, mas a consolidação de uma identidade. Um álbum que apresenta uma banda segura das próprias influências, consciente das próprias possibilidades e preparada para crescer ainda mais.
No dia 12 de julho, a Chico Balanceado sobe ao palco da casa cultural Belvedere para o show oficial de lançamento do álbum ao lado de Nomebom e PECI. E se existe uma conclusão depois de escutarmos “Pegue O Que Quiser”, é que essa história está apenas começando.
Mas que começo extraordinário.
Poucas vezes encontramos um álbum de estreia que transmite tanta personalidade, tanta sinceridade e tanta vontade de continuar sendo escutado. A Chico Balanceado conseguiu criar algo raro: um disco que fala sobre a vida comum e, justamente por isso, se torna extraordinário.



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