A gente estava esperando esse lançamento. Já tínhamos falado sobre measyou quando lançou o single “Jogo Sujo Que Se Foda”, e naquela altura já era possível perceber que alguma coisa estava mudando dentro do projeto. Existia uma energia diferente, uma urgência diferente e, principalmente, uma vontade de dizer as coisas de forma mais direta. Agora que “Eu Sinto Muito!” chegou por completo, ficamos com a confirmação daquilo que já suspeitávamos: estamos diante de um artista que encontrou uma identidade ainda mais forte para a própria música.

O que mais impressiona neste novo trabalho é justamente a sensação de que tudo faz sentido. Não porque seja um álbum fácil ou confortável, mas porque existe uma coerência emocional muito clara entre as oito faixas.

Você sente que houve uma transformação dentro do próprio Lucas Mateus e que essa transformação acabou inevitavelmente encontrando espaço na música. É um disco que não tenta repetir fórmulas, não tenta recriar momentos passados e nem procura se esconder atrás da nostalgia. Pelo contrário. Ele encara o desconforto de frente.

Essa talvez seja a melhor forma de definir “Eu Sinto Muito!”.

Se o álbum anterior, Toda Tristeza Que Habita em Nossos Quartos, parecia existir dentro de um espaço fechado, quase como um diário escrito em um quarto escuro durante uma madrugada difícil, o novo trabalho abre as janelas. Não para fugir da tristeza, mas para permitir que ela respire. O resultado é um disco que continua profundamente vulnerável, mas que se comunica de forma mais direta, mais crua e mais intensa.

Ao longo das oito músicas, measyou constrói um universo onde conflitos internos, relações desgastadas, inseguranças e emoções difíceis continuam ocupando o centro da narrativa. A diferença é que agora existe menos filtro entre aquilo que é sentido e aquilo que é dito. As canções parecem menos preocupadas em proteger o ouvinte e mais interessadas em compartilhar a verdade exatamente como ela aparece.

E isso funciona de maneira impressionante.

Musicalmente, o álbum também demonstra crescimento. Não se trata de uma ruptura completa com o que veio antes, mas de uma expansão natural. Há mais camadas, mais profundidade e uma construção sonora que amplia o alcance das músicas sem comprometer aquilo que sempre fez o projeto ser especial. O DNA DIY continua presente em todos os momentos, mas agora acompanhado por uma produção que permite às composições ocuparem espaços maiores.

A parceria com Twin Pumpkin na produção tem papel fundamental nesse processo. Existe um cuidado evidente nos arranjos, na dinâmica das músicas e na forma como cada elemento encontra espaço dentro das faixas. O disco ganha corpo, ganha peso e ganha textura, mas sem perder aquela sensação de proximidade que sempre definiu o universo do measyou.

As participações especiais também ajudam a ampliar esse cenário sem parecerem artificiais. Lucas Silveira, da Fresno, THEREALBIGRIC e Israel Castro, do Twin Pumpkin, não aparecem como simples convidados. Eles funcionam como extensões naturais da proposta artística do álbum, contribuindo para enriquecer a narrativa sem desviar a atenção do centro emocional do projeto.

Entre todas as músicas, uma ficou especialmente marcada na nossa memória: “Em Seu Nome Eu Não Existo Mais”.

Existe algo profundamente bonito nessa faixa. Algo difícil de explicar em termos puramente técnicos. A voz processada, quase distorcida pelo microfone em alguns momentos, cria uma sensação de distância e proximidade ao mesmo tempo. É como ouvir alguém tentando encontrar a própria voz em meio ao ruído. A música possui uma atmosfera que vai crescendo lentamente até envolver completamente quem está escutando. Você não apenas ouve a canção. Você entra nela.

E talvez essa seja uma das maiores qualidades de “Eu Sinto Muito!”.

As músicas não ficam apenas nos fones de ouvido. Elas criam ambientes. Criam sensações. Criam espaços emocionais onde o ouvinte pode reconhecer partes de si mesmo.

Dentro de uma cena independente que muitas vezes oscila entre revisitar referências conhecidas ou repetir fórmulas já consolidadas, measyou escolhe outro caminho. Escolhe o risco. Escolhe a transformação. Escolhe permitir que a própria evolução artística aconteça sem medo das consequências. Isso faz com que o álbum tenha uma personalidade muito forte e uma identidade que pertence exclusivamente ao projeto.

O mais interessante é que, apesar de todas as mudanças, o disco nunca perde aquilo que fez tantas pessoas se conectarem com o trabalho de Lucas Mateus desde o início. A vulnerabilidade continua lá. A honestidade continua lá. As feridas continuam lá. A diferença é que agora elas aparecem sem tantos intermediários.

E talvez seja justamente por isso que “Eu Sinto Muito!” funcione tão bem.

Porque não é um álbum sobre estar confortável. É um álbum sobre crescer. Sobre encarar versões antigas de si mesmo. Sobre aceitar que algumas mudanças são necessárias.E sobre descobrir que vulnerabilidade não é fraqueza, mas uma das formas mais poderosas de honestidade artística.

Com este lançamento, measyou não apenas confirma tudo o que já víamos nos singles recentes. Ele dá um passo importante na construção da própria identidade e entrega um trabalho que soa mais livre, mais confiante e mais verdadeiro. Um álbum que não procura respostas fáceis, mas que encontra beleza justamente nas perguntas que continuam sem solução.



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