A gente já tinha falado sobre a Vulgari aqui na Divergent Beats quando eles lançaram Flutuar (leia aqui). E, sinceramente, desde aquele momento ficou claro que não estávamos diante de uma banda comum. Existia algo diferente na forma como eles construíam suas músicas. Algo que ultrapassava gênero, estética ou tendências. Existia uma capacidade rara de transformar emoções em paisagens sonoras.
Agora, com o lançamento de Euforia, essa sensação não apenas se confirma como cresce de maneira impressionante. E talvez não exista nome mais perfeito para esse EP do que justamente Euforia, porque tudo aqui parece desenhado para provocar exatamente isso: uma explosão emocional que te envolve por completo e te faz sentir mais vivo.
A Vulgari se define como um projeto de digital shoegaze de São Paulo, mas qualquer definição técnica acaba sendo pequena diante daquilo que acontece quando você coloca play. Porque o que eles fazem vai muito além de um estilo musical. É uma experiência sensorial. É uma viagem construída através de guitarras que parecem flutuar pelo espaço, camadas sonoras que se expandem como ondas e uma voz que não apenas canta, mas conduz o ouvinte por diferentes estados emocionais.
Logo na primeira faixa, Ser/ Existir, a banda deixa claro que você está entrando em um universo muito específico. Quando ouvimos os versos “distante, eu tento alcançar a chance de me sentir vivo”, tudo já está dito. Em poucos segundos, a Vulgari consegue apresentar a essência de seu trabalho. Não estamos falando apenas sobre música. Estamos falando sobre busca, pertencimento, vulnerabilidade e desejo. Estamos falando sobre aquilo que acontece quando alguém encontra palavras para sentimentos que muitas vezes nem sabemos explicar.
E talvez seja justamente essa a maior qualidade de Euforia. A capacidade de traduzir emoções complexas em algo que pode ser sentido de forma imediata. Há artistas que escrevem músicas. Há artistas que contam histórias. E há artistas que criam atmosferas capazes de engolir completamente quem está ouvindo. A Vulgari pertence claramente ao terceiro grupo.
As guitarras desempenham um papel fundamental nessa construção. Elas não aparecem apenas como instrumentos. Funcionam quase como personagens. Em determinados momentos parecem abraçar a voz. Em outros, parecem arrastar o ouvinte para lugares mais profundos e introspectivos. Existe uma sensação constante de movimento. Como se cada faixa estivesse viva, respirando e crescendo diante de você.
Foi exatamente isso que sentimos quando revisitamos Flutuar, um dos lançamentos que antecederam o EP e que continua sendo uma das experiências mais bonitas dentro desse universo. Há um trecho que permanece ecoando muito tempo depois do término da música: “quero mergulhar nesse mar tão incerto e consigo sentir quando chora comigo. Quero me afogar em você por completo”. São versos impressionantes. Não pela complexidade das palavras, mas pela intensidade da emoção. Existe algo profundamente humano nessa forma de escrever. Algo que faz com que a música pareça menos uma composição e mais uma confissão.
O mesmo acontece quando ouvimos o verso “só o caos ao meu redor, vento que me eleva por você”. É exatamente esse equilíbrio entre caos e beleza que define a identidade da banda. A Vulgari parece entender que as emoções raramente são simples. Amor, saudade, desejo, medo e esperança costumam coexistir ao mesmo tempo. E suas músicas refletem perfeitamente essa complexidade.
Uma das coisas que mais nos impressionaram em Euforia é a maturidade emocional presente em todas as faixas. Não existe sensação de preenchimento ou repetição. Cada música acrescenta uma nova camada à experiência. Cada momento parece ter sido pensado para expandir aquilo que veio antes. É um EP que funciona como uma obra completa, algo cada vez mais raro em uma época em que muitas vezes as músicas são consumidas de forma isolada.
A faixa final, Será Que Um Dia Você Vai Me Levar Pra Sonhar?, talvez seja o melhor exemplo disso. O próprio título já parece um convite para entrar definitivamente no universo da banda. E quando ela chega, sentimos como se estivéssemos observando o encerramento de uma jornada emocional construída com extremo cuidado. É uma conclusão que não oferece respostas prontas. Pelo contrário. Deixa espaço para interpretação, para sentimento e para permanência.
Também é impossível não mencionar o impacto visual do projeto. A capa de Euforia funciona quase como uma extensão perfeita da música. A figura flutuante, os olhos carregados de emoção, a sensação de suspensão entre sonho e realidade. Tudo conversa diretamente com aquilo que ouvimos ao longo do EP. É uma identidade artística extremamente coerente, onde imagem e som caminham juntos.
Na Divergent Beats, raramente fazemos listas ou classificações definitivas. Acreditamos que a arte é subjetiva demais para isso. Mas existem momentos em que algumas obras se destacam de forma tão evidente que seria impossível ignorar. E Euforia é um desses casos. Sem qualquer exagero, consideramos este um dos três EPs mais bonitos lançados em 2026 até agora.
Não porque seja perfeito tecnicamente. Não porque siga tendências. Não porque tente impressionar. Mas porque consegue algo muito mais difícil: emocionar de verdade. E quando uma obra consegue fazer isso, ela deixa de ser apenas música. Ela se transforma em memória. E Euforia já faz parte das nossas.
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