A gente não via a hora do lançamento deste álbum. Já falamos diferentes vezes sobre Renan Benini e sobre as músicas que anteciparam este momento, e justamente por isso decidimos esperar um pouco antes de escrever sobre São Francisco, 31.
Queríamos abraçar essa obra musical por completo. Queríamos viver essas canções, deixar que elas encontrassem espaço dentro da nossa rotina, que conversassem com as nossas próprias memórias. E, depois de muitas audições, a sensação continua exatamente a mesma da primeira vez: estamos diante de algo completamente especial.
Existem discos que são excelentes. Existem discos que marcam um determinado momento. E existem aqueles raros trabalhos que parecem destinados a permanecer. Aqueles álbuns que você imagina encontrando daqui a vinte anos em alguma lista dos grandes discos da música independente brasileira, não porque foram criados para impressionar, mas porque carregam uma honestidade tão profunda que se tornam atemporais. São Francisco, 31 pertence a essa categoria.

Conhecido há mais de quinze anos como baixista, vocalista e compositor da Lupe de Lupe, Renan Benini apresenta aqui o seu primeiro trabalho solo. Mas talvez a palavra “estreia” não consiga explicar completamente o que este álbum representa. Porque essas músicas não nasceram agora. Elas foram escritas entre os 13 e os 24 anos de idade, atravessando adolescência, juventude, descobertas, paixões, inseguranças, conflitos familiares e mudanças que ajudaram a moldar quem ele se tornou.
Durante anos, muitas dessas composições permaneceram guardadas, algumas existindo apenas como melodias, outras esperando o momento certo para encontrar suas palavras definitivas. O resultado é um disco que parece reunir diferentes versões de Renan dentro de uma mesma paisagem emocional.
E talvez seja justamente isso que torna a experiência tão fascinante.
Ao longo das dez faixas, temos a sensação de acompanhar não apenas um álbum, mas uma trajetória. Cada música funciona como uma janela aberta para um período específico da vida do artista, mas todas conversam entre si de maneira impressionante. O adolescente que começou a compor o tema de São Francisco, 31 aos quinze anos no piano em que aprendeu suas primeiras notas está presente no mesmo universo do músico que hoje sobe aos palcos com a Lupe de Lupe.
O jovem que escreveu Valsas de um Bolero depois de um dia de aula continua habitando essas canções. O garoto que comprou seu primeiro violão com o dinheiro conquistado trabalhando com a família na Feira Hippie de Belo Horizonte ainda ecoa em Muriaé. São tempos diferentes coexistindo dentro da mesma obra.
O mais bonito é que nada disso soa nostálgico no sentido tradicional da palavra. Pelo contrário. Embora essas músicas tenham sido compostas há muitos anos, elas parecem incrivelmente presentes. Talvez porque os sentimentos que atravessam o disco continuem universais. Crescer continua sendo difícil. Amar continua sendo complicado. Conviver com a família continua sendo um exercício permanente de afeto, conflito e compreensão. E Renan escreve sobre tudo isso com uma sensibilidade rara.
Durante a audição, diversos momentos nos fizeram lembrar artistas como Cat Stevens, Patti Smith e até algumas das construções emocionais mais grandiosas do Arcade Fire. Não porque o álbum soe igual a esses nomes, mas porque compartilha com eles a capacidade de transformar experiências profundamente pessoais em algo coletivo.
Há uma identidade muito forte em São Francisco, 31. Você nunca sente que está ouvindo alguém tentando reproduzir uma referência. Está ouvindo um compositor que sabe exatamente quem é e que encontrou a forma perfeita de traduzir isso em música.
A abertura com Fim das Contas já deixa isso evidente. Conduzida inicialmente por voz e violão, a faixa apresenta um Renan vulnerável, observador e extremamente humano. Quando ele canta “Ainda mais no fim das contas, não quero perder o pouco que resta de você. Juro que amanhã de novo tento entender que o dia vai renascer”, não estamos apenas ouvindo uma letra bonita.

Estamos diante daquela combinação rara entre poesia e verdade, aquela sensação de que alguém conseguiu colocar em palavras algo que muitas pessoas sentem, mas poucas conseguem expressar.
Essa honestidade atravessa o álbum inteiro. Em Família, que já havia nos emocionado profundamente quando foi lançada como single, ganha ainda mais força dentro do contexto do disco. As cordas interpretadas por Rodrigo Garcia e Samuel Gomide ampliam a intensidade emocional da canção sem jamais transformá-la em algo excessivo.
Já Muriaé surge como uma das faixas mais afetivas do trabalho, carregando consigo a memória dos lugares, das origens e das experiências que ajudaram a construir a identidade do artista.
Musicalmente, o álbum cresce de forma orgânica. A abertura minimalista aos poucos dá espaço para arranjos mais amplos, com metais, cordas, coros e camadas instrumentais que enriquecem a narrativa sem roubar o protagonismo das composições.

As participações de Bruna Carvalho, Juventino Dias, João Paulo, Acássio, Henrique Matheus e Thiago Corrêa ajudam a expandir esse universo sonoro, enquanto a produção de Thiago Corrêa e Henrique Matheus encontra o equilíbrio perfeito entre delicadeza e profundidade.
Existe também algo muito bonito na própria história da faixa-título. Embora a melodia acompanhasse Renan desde a adolescência, a letra foi uma das últimas a encontrar sua forma definitiva. O nome São Francisco, 31 surgiu apenas quando ele percebeu que aquela música reunia todos os sentimentos espalhados pelo restante do álbum. E isso faz total sentido. Porque, ao chegar ao final da audição, temos exatamente essa sensação: a de que todas as peças finalmente encontraram seu lugar.
Quem acompanha a Divergent Beats sabe que raramente usamos a expressão “álbum do ano”. Não porque não existam grandes discos sendo lançados, mas porque acreditamos que a arte é subjetiva e que cada pessoa constrói sua própria relação com a música. Ainda assim, existem obras que conseguem ultrapassar essa discussão e se impõem pela força daquilo que oferecem.
São Francisco, 31 é uma delas.
É um álbum que reúne décadas de sentimentos, memórias e experiências sem nunca perder a leveza. É um disco que transforma o íntimo em universal e que confirma aquilo que muitos já sabiam há anos: Renan Benini é um compositor extraordinário. Mais do que um dos melhores lançamentos de 2026, São Francisco, 31 é daqueles trabalhos raros que continuam crescendo dentro de você muito depois que a última música termina.



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