A gente já falou de GIU LENDA e do primeiro single desse novo percurso artístico, “Recordista Mundial Se o Doping Fosse Esporte”, uma faixa que amamos do começo ao fim pela sua capacidade de provocar, incomodar e fazer pensar.
Agora ele chega com “COCUM” e dá ainda mais força ao próprio nome, à própria identidade e à própria voz daquilo que quer dizer ao mundo. Se o lançamento anterior já mostrava um artista disposto a desafiar convenções, “COCUM” confirma que estamos diante de alguém que não tem medo de mergulhar em territórios desconfortáveis para transformar inquietação em música.
Desde os primeiros segundos, a faixa cria uma atmosfera que parece engolir o ouvinte. Existe algo de cinematográfico, sombrio e quase hipnótico na construção sonora. Os timbres saturados, os elementos que flertam com o trip-hop mais obscuro e essa sensação constante de tensão fazem com que a experiência vá muito além de simplesmente escutar uma música. Você entra dentro dela. Você passa a caminhar por esse cenário pós-industrial em ruínas que GIU LENDA constrói com uma precisão impressionante.
O mais fascinante é que “COCUM” nunca soa como um exercício de estilo. Cada escolha sonora existe para servir a uma narrativa. E essa narrativa é dura. Muito dura. Estamos falando de uma canção que encara de frente temas como degradação ambiental, fanatismo religioso, alienação coletiva, colapso social e a estranha normalização do caos que parece definir boa parte do nosso tempo.
Em vez de apresentar respostas, GIU LENDA constrói imagens que nos obrigam a olhar para aquilo que muitas vezes preferimos ignorar.
Nascido em Vitória, no Espírito Santo, e atualmente radicado em Barcelona, GIU LENDA carrega uma trajetória que atravessa diferentes capítulos importantes da música brasileira. Foi peça fundamental na construção sonora dos primeiros discos do Dead Fish, participando de uma fase histórica do hardcore nacional, e também integrou a banda de SILVA, levando sua música para palcos de festivais como Lollapalooza e Rock in Rio Lisboa. Toda essa bagagem aparece de forma sutil em seu trabalho solo, mas nunca como repetição do passado. Pelo contrário. Ela funciona como combustível para uma linguagem completamente própria.
É justamente essa identidade que torna “COCUM” tão impactante. Em uma época em que muitos artistas parecem preocupados em seguir fórmulas, GIU LENDA escolhe o caminho oposto.
Ele constrói uma obra guiada pela experimentação, pelo contraste e pela coragem de explorar territórios onde nem sempre existe conforto. O resultado é uma música que desafia o ouvinte e recompensa quem aceita entrar nesse universo.
Existe um trecho da faixa que ficou profundamente marcado em nós:
“Reza enquanto sente a pele escorrer. Fazer o quê se o fim se aproxima? E se da última esquina eu vi o sonho derreter. A vida que você não aproveitou acabou. Do que adiantou se privar de tudo?”
Poucas vezes uma sequência de versos conseguiu traduzir tão bem o espírito de uma geração que parece viver permanentemente entre a ansiedade e a resignação. Existe algo de brutal nessa pergunta: “Do que adiantou se privar de tudo?”. Porque ela não fala apenas sobre o fim do mundo. Ela fala sobre o fim das oportunidades, o fim do tempo, o fim da coragem de viver plenamente.
Na visão da Divergent Beats, é justamente aí que mora a genialidade de “COCUM”. A música funciona como um manifesto, mas não um manifesto panfletário ou previsível. É um manifesto existencial. Uma reflexão dura sobre o modo como atravessamos a vida enquanto tudo ao nosso redor parece caminhar para algum tipo de colapso.

O apocalipse apresentado por GIU LENDA não chega com explosões cinematográficas. Ele já está aqui. Está nas pequenas normalizações diárias. Está na forma como nos acostumamos ao absurdo. Está na velocidade com que transformamos tragédias em rotina.
E ainda assim, por mais pesada que seja sua mensagem, “COCUM” não é uma música sem vida. Muito pelo contrário. Existe energia em cada segundo da faixa. Existe groove. Existe movimento. Existe uma força artística que transforma desespero em criação. Talvez seja exatamente isso que torne o trabalho tão poderoso.
Outro aspecto impressionante é o fato de toda a produção ter sido realizada pelo próprio artista. Produzida, gravada e interpretada integralmente por GIU LENDA, a música reforça uma autonomia criativa que se tornou uma das marcas centrais do projeto. Não existem filtros entre a visão do artista e aquilo que chega ao público. Tudo parece nascer diretamente da sua imaginação, passando sem concessões pela música, pela estética e pela narrativa.
“COCUM” também reforça o caminho que GIU LENDA vem construindo para os próximos anos. A faixa faz parte de um planejamento de lançamentos para 2026 e 2027, conectando suas bases entre Brasil e Europa e consolidando uma identidade artística que dialoga com diferentes universos sem pertencer completamente a nenhum deles.
No final das contas, “COCUM” é uma bomba conceitual. Uma explosão de ideias, imagens e sentimentos que se recusam a permanecer em silêncio. É uma música que incomoda porque precisa incomodar.
Que provoca porque entende que a arte ainda pode ser um espaço de confronto. E que nos lembra, de forma dura e extremamente honesta, que talvez a pergunta mais importante não seja quando o mundo vai acabar, mas o que estamos fazendo com o tempo que ainda temos antes disso acontecer.



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