Existe uma nova geração de bandas brasileiras que não está pedindo espaço, está ocupando. Bandas que entenderam que fazer música hoje não é só estética, não é só som — é posicionamento. É grito. É corpo. É tensão. É dizer aquilo que incomoda sem tentar suavizar. E a Planoreal é exatamente isso. Um retrato direto, cru e necessário de como a juventude contemporânea está usando o hardcore, o rock alternativo e o emo não como nostalgia, mas como linguagem viva para falar do agora.
E mais uma vez, chega uma nova bomba da Alter Ego Produções. Um selo que vem, lançamento após lançamento, colocando no mundo artistas que não estão aqui para preencher espaço, mas para criar impacto. E Mérito entra exatamente nesse lugar.
Formada em 2021 em Joinville, Santa Catarina, a Planoreal nasce de um impulso muito claro: transformar inquietação em som. Antes disso, entre 2020 e 2024, o projeto existia sob o nome Catnip, já circulando na cena underground e dividindo palco com nomes importantes como Dance of Days e Haterna, construindo uma base sólida de shows, experiências e repertório. A mudança de nome não foi ruptura, foi continuidade. A identidade, a mensagem e principalmente a energia permaneceram intactas. O que mudou foi a forma como isso começou a se consolidar.
Em 2025, a banda lança seu primeiro álbum, Nativos da Era da Mentira, gravado totalmente de forma caseira, um trabalho que já carregava tudo aquilo que define o projeto: intensidade, urgência, alternância entre gritos e melodias, letras que não evitam conflito.

No mesmo ano, vieram os singles “Inércia”, “Importância” e “Sabotagem”, ampliando o alcance da banda dentro da cena independente e preparando o terreno para o próximo passo.
E esse próximo passo é Mérito.
Um EP que não funciona como simples compilação, mas como afirmação. São seis faixas, pouco mais de vinte e três minutos, mas o tempo aqui é irrelevante. Porque o que a planoreal faz não se mede em duração — se mede em impacto. Em energia. Em presença. É um trabalho que você não escuta uma vez só. Você volta.
Você precisa voltar. Porque cada faixa carrega algo que te puxa de novo: um grito, um riff, uma frase, uma sensação que não se resolve na primeira escuta.
A sonoridade bebe diretamente da fonte do hardcore dos anos 2000, com ecos claros de bandas como Dead Fish, mas sem soar presa ao passado. Pelo contrário, existe uma atualização constante, uma tentativa de trazer esse peso para um contexto atual, onde o caos não é só estético, é vivido. Guitarras distorcidas, baterias aceleradas, alternância entre vocais gritados e passagens melódicas criam uma dinâmica que nunca fica estática. Tudo está em movimento, tudo está à beira de explodir.
E explode.
Mas não de forma vazia. Explode com intenção. Explode com conteúdo. Porque as letras são o centro de tudo.
E “Inércia” talvez seja o melhor exemplo disso.
Quando eles cantam:
“acordado novamente, onde sempre estou, sonhando com lugares que nunca vou”
não é só uma frase bonita. É um estado mental. É um retrato. É aquela sensação de estar preso num ciclo, de existir sem sair do lugar, de imaginar mais do que viver. E quando continua em
“preso no passado, com medo constante, de saber que não tem jeito, ideal conflitante”
a música deixa de ser só expressão e vira identificação.
Porque isso não é só deles.
É de todo mundo.
E aí vem o golpe final.
“atrás de uma tela, sem brilho e sem vida, mandando cartas que não serão respondidas”
E pronto. Você está dentro.Completamente dentro.
Porque isso é agora. É cotidiano. É geração. É a forma como a gente vive, se comunica, se perde. E a planoreal entende isso sem precisar explicar demais. Eles só mostram. E mostram com força. Com agressividade.
Mas uma agressividade que não afasta — aproxima. Porque é verdadeira.
E isso se estende para todo o EP. “Imortal”, por exemplo, sintetiza muito bem a proposta da banda, com sua energia catártica e construção sonora que reflete exatamente o que acontece nos shows: intensidade física, entrega total, um tipo de experiência que não fica só no áudio. E o fato de tudo isso vir acompanhado de uma estética DIY, tanto na produção quanto nos clipes, reforça ainda mais a autenticidade do projeto. Nada aqui parece filtrado. Nada aqui parece adaptado.
É direto. É independente. É real.
E é exatamente isso que torna a Planoreal uma das bandas mais interessantes desse momento dentro da cena underground brasileira. Não só pelo som, mas pela forma como ocupam o espaço, como constroem sua trajetória, como transformam cada lançamento em um passo consistente dentro de algo maior.
A gente da Divergent Beats sente isso. Sente que não é só um EP. É um movimento.
E se Mérito já chega com esse nível de força, de clareza e de identidade, o que vem a seguir não é só promissor.
É inevitável.



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