Nós, de Divergent Beats, acreditamos profundamente que a música não serve apenas para embalar sentimentos: ela pode mudar o presente e reescrever o futuro, seja o de uma pessoa, seja o de um território inteiro. E é exatamente isso que o Coletivo Marulho está fazendo com este projeto. Marulho Vol. 1 não é só um álbum — é um soco simultâneo no coração e no estômago, daqueles que doem porque são verdadeiros, mas também porque são lindos.
O Coletivo Marulho nasce em Belém do Pará, longe dos centros que historicamente decidem o que merece ser ouvido. E nasce não como “cena”, não como “tendência”, mas como movimento de sobrevivência artística. Reagents, Venus Vulgaris, Chorume e Os Renascentistas se unem não para pedir espaço, mas para criar o próprio chão, a própria memória, a própria narrativa. Aqui não existe exotização da Amazônia, não existe paisagem decorativa: existem cidade, rio, violência, política, corpo e urgência.
Marulho Vol. 1 é um disco que soa como a pulsação da Amazônia urbana contemporânea. São oito faixas que carregam ruído, peso, tensão e poesia, costuradas por uma identidade coletiva muito clara: não transformar ferida em cartão-postal. É um álbum que antecede qualquer discurso internacional sobre sustentabilidade porque os problemas cantados aqui são antigos, estruturais e continuam sangrando agora.
Não existe faixa fraca, não existe momento de distração. Tudo aqui é intenção. As guitarras cortam, os baixos pesam, as baterias empurram, e as vozes não pedem desculpa por existir. As letras são onde o impacto se torna irreversível — elas te obrigam a parar, ouvir e sentir.
Em “Aquilo Que Você Não É”, da Venus Vulgaris, a crítica vem direta, sem metáfora confortável:
“Um sanguinário predador
Vivendo às custas do consumidor
É necessário o seu suor
E seu tempo está passando em notas de papel, até não estar mais…”
É capitalismo dito sem rodeio, sem filtro, sem maquiagem. Um retrato de exploração que não se esconde atrás de conceitos abstratos — ele aponta, nomeia e acusa.

Já em “Conde”, do Chorume, a espiritualidade vira grito coletivo e pedido de socorro:
“Iemanjá, limpa essa água pro povo beber
Iemanjá, limpa essa água pro Conde banhar
Iemanjá, limpa essa água pra gente brincar
Iemanjá, protege todos que estão na água”
Aqui, o sagrado encontra a denúncia ambiental. Não é folclore: é sobrevivência. A água não é símbolo — é necessidade básica, é vida ameaçada.
Em “Nós Não Gostamos de Vocês”, Os Renascentistas entregam um dos momentos mais fortes do disco, com uma rejeição frontal ao imaginário colonial e ao sonho importado:
“Não estou mais interessado
Em correr atrás de um sonho americano
Vai que eu fico igual vocês
Prefiro ser como minha mãe
E meu pai, que trabalharam tanto
E não quiseram ser donos de ninguém”
É identidade, classe, memória familiar e dignidade condensadas em versos que cortam fundo. Um não explícito a um modelo de sucesso que só existe para poucos.
E em “Sizígia”, da Reagents, a água volta como metáfora de tensão e transbordamento:
“Minhas águas estão cheias
Elas desaguam em você
Só não sei a escolha perfeita pra arma que eu vou usar
Mas eu sei que muita água transborda o mar”
Aqui tudo ameaça romper. Emoção, território, corpo, política. Nada está contenido. Nada deveria estar.
Marulho Vol. 1 não pede licença, não quer agradar e não busca validação externa. Ele existe porque precisa existir. É documento, manifesto e registro histórico de uma geração que decidiu não aceitar ser nota de rodapé nem cenário exótico em discursos prontos.
O Marulho é mais do que um coletivo. É um aviso. E quem escuta esse disco entende: depois dele, não dá mais para fingir que não ouviu.



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