Uma das coisas mais bonitas da música alternativa brasileira é exatamente essa: você nunca sabe quando vai encontrar algo que te muda. Algo que não está tentando seguir tendência nem caber em formato, mas simplesmente existe com força própria. E foi exatamente isso que aconteceu com a gente quando chegamos na Curva do 90.

Diretamente de São Luís do Maranhão, a banda surge como um desses encontros raros onde tudo faz sentido mesmo sendo completamente fora do padrão. Misturar rock experimental, progressivo e punk já seria suficiente pra chamar atenção, mas eles vão além e colocam dentro disso ritmos, sensações e uma identidade que vem das próprias raízes. E isso muda tudo. Porque não é só som — é território, é vivência, é história entrando na música.

Formada no final de 2022 por Arthur Felipe, Guilherme Campos e Arthur José, a Curva do 90 chega com Não Feche o Cruzamento, seu primeiro registro oficial nas plataformas digitais, lançado pelo selo Brisa Discos. Um EP que já na estreia mostra uma coragem que muita gente perde no meio do caminho: a de não simplificar. Enquanto o mundo está acelerando, encurtando, reduzindo, eles fazem o oposto. Criam faixas longas, deixam a música respirar, crescer, mudar, se transformar ao longo do tempo.

E isso se sente desde o primeiro play.

A gente já tinha falado no Divergent Beats sobre “Expresso Mauritânia”, uma faixa que nos pegou imediatamente, mas ouvir o EP completo é outra experiência. São seis faixas, incluindo a bônus ao vivo “Reflexo de Vidro”, e em cada uma delas existe algo muito claro: identidade. Não tem nada genérico aqui. Cada som, cada virada, cada repetição parece carregar um pedaço deles — do passado, do presente e do que ainda está por vir.

“Sai do Celular” já abre com um impacto direto, quase como um chamado, uma provocação que não tenta ser sutil. É imediato, é forte, é aquele tipo de começo que já te coloca dentro do universo da banda sem espaço pra distração. E aí o EP vai se expandindo, vai abrindo caminhos, vai mostrando que eles não estão presos a uma fórmula.

“Pipolândia”, por exemplo, é uma faixa instrumental que mostra o nível de construção da banda. Ali você entende que não é só sobre letra ou mensagem direta, é sobre atmosfera, sobre criar imagens, sobre fazer a música falar mesmo sem palavras. É técnica, mas nunca fria. É construção, mas sempre com sentimento.

E então chega “Estática”. E ali tudo se revela.

Mais de oito minutos de duração, uma faixa que não tem pressa, que não tenta te conquistar rápido, mas que vai te puxando aos poucos, te envolvendo, te levando pra dentro até você perceber que já não está mais só ouvindo — está vivendo aquilo. É nessa faixa que você entende completamente quem é a Curva do 90. A coragem de alongar, de repetir, de tensionar, de construir sem medo de perder atenção. E ao contrário do que muitos pensariam, é exatamente isso que prende.

Porque é real.

E o fechamento com “Reflexo de Vidro”, ao vivo, reforça tudo isso de forma ainda mais forte. Mostra que essa não é só uma banda de estúdio. É uma banda de palco, de corpo, de presença. A execução ao vivo não é um detalhe — é parte essencial da identidade deles.

No final, o que fica é claro.

Não Feche o Cruzamento não é só um EP de estreia. É uma afirmação.

É uma banda dizendo que existe, que tem algo a dizer e que vai fazer isso do jeito deles, no tempo deles, com a intensidade deles.

E a gente da Divergent Beats sente isso. Sente que não é só bom. É importante. É aquele tipo de trabalho que não passa. Fica.

Instagram Curva do 90



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