Tem algo muito poderoso acontecendo na música hoje. Algo que vai além de estética, além de gênero, além de referência. Artistas não estão só criando som — estão abrindo feridas, falando de coisas que por muito tempo ficaram escondidas, trazendo pra superfície aquilo que todo mundo sente, mas nem sempre sabe como dizer. E talvez essa seja a maior força da nova música brasileira: a coragem de ser humana.

Porque a vida adulta de hoje não é a mesma de antes.

É mais confusa. Mais pesada. Mais instável. Mais silenciosamente caótica.

E quando uma banda consegue pegar tudo isso e transformar em música de forma honesta, direta e sem filtro, você sente. E foi exatamente isso que aconteceu com a gente ao ouvir Abusado, o novo disco da Hotnail.

Diretamente de Mossoró, no Rio Grande do Norte, a banda chega em 2026 chutando a porta sem pedir licença. Formada por Rafaum Costa nas guitarras e vozes, Jean Lone também nas guitarras, Vitória Bessa na bateria e José no baixo, a Hotnail carrega no som um peso que vem do garage rock, do grunge, do punk, mas que nunca soa como cópia. Porque existe algo ali que é deles. Algo que vem da vivência, do território, da forma de ver o mundo.

Cantando em português potiguar, com riffs diretos, sujos, vivos, eles constroem uma sonoridade que te puxa imediatamente, mas é nas letras que tudo explode.

Abusado é um álbum que você não escuta pela metade.

É do começo ao fim. E quando acaba, você volta.

Porque existe uma intensidade ali que não te deixa sair fácil. É vulnerável, mas nunca fraco. É pesado, mas nunca vazio. É direto, mas cheio de camadas. É uma mistura de força e exposição que poucas bandas conseguem equilibrar.

Na faixa “Eu Avisei”, por exemplo, existe um momento que resume muito bem o que é a Hotnail. Quando eles cantam:

“nem me lembro quantas vezes tentei avisar que as ideias muito altas podem desabar”

não é só uma frase bonita. É um reflexo direto do mundo que a gente vive hoje. Esse lugar onde todo mundo tenta ser mais do que é, onde existe uma pressão constante de grandeza, de sucesso, de perfeição, enquanto ninguém para pra lembrar que somos humanos. Que erramos. Que caímos. Que nem sempre dá.

E essa consciência dói. Mas também liberta.

Já em “Caloteiros do Senhor”, a banda entra em outro território, mais político, mais social, mais desconfortável. Quando abre com

“tão hipócritas, tão hipócritas, prometem céu com sua falsa fé”

não deixa espaço pra dúvida. É crítica direta. É exposição de uma realidade que muita gente prefere não tocar. E isso, vindo de um contexto onde certas estruturas ainda são muito fortes, ainda mais dentro de uma sociedade que muitas vezes se fecha, ganha um peso ainda maior.

Porque não é só coragem. É necessidade. E no meio de toda essa intensidade, existe também espaço pra algo inesperado.

“A da Kakinha”, uma faixa que entra quase como um respiro dentro do caos, um momento de doçura que a banda consegue inserir com uma sensibilidade absurda. Cantada por Kali Cunha, ela traz uma leveza que não diminui o peso do álbum, mas amplia. Porque mostra que a Hotnail não é feita só de impacto, mas também de contraste. E é exatamente isso que torna o disco ainda mais humano. Essa capacidade de ir do grito à delicadeza, da tensão ao carinho, sem perder a identidade.

É uma fofura, sim. Mas uma fofura que tem função. Que equilibra. Que fica. E isso define muito bem o que é Abusado.

Um disco necessário.

Produzido de forma totalmente independente pelo próprio Rafaum Costa, nos estúdios Rádio Sarjeta e Cosmos Art Studio em Mossoró, o álbum carrega essa estética crua, sem polimento excessivo, sem tentativa de suavizar o que precisa ser dito. O som é direto porque a mensagem é direta. Não tem filtro porque não tem tempo pra filtro.

E talvez seja isso que faz a Hotnail se destacar tanto. Eles não estão tentando agradar. Eles estão tentando dizer. E conseguem.

Dentro desse underground nordestino que cada vez mais prova sua força, sua identidade e sua relevância, a Hotnail aparece como uma dessas bandas que você olha e entende imediatamente: isso aqui é importante.

Isso aqui não é só mais um lançamento. É movimento. É transformação. É uma banda que está, de verdade, mudando alguma coisa.

E a gente da Divergent Beats sente isso. Sente que isso não vai passar. Vai ficar.

Instagram Hotnail



One response to “Hotnail lança “Abusado” e transforma caos emocional em força sonora”

  1. Que resenha! Muito obrigado pelas palavras, incrível!

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