A cena rock alternativa do Rio de Janeiro continua a nos surpreender. Tem algo ali que é difícil de explicar, mas fácil de sentir. Não tira nada de outras cenas do Brasil, mas existe uma energia carioca que é crua, fresca, viva, quase como se cada banda estivesse criando sem pedir permissão. E foi exatamente isso que sentimos quando colocamos play em Mantenha Distância, da Ouriço.

Mais uma pedrada vinda da Alterego Produções, que está montando um dos catálogos mais interessantes da nova música brasileira, e a Ouriço chega mostrando que não está aqui para seguir caminho já feito. Formada em 2024 e já com uma trajetória intensa de shows pela cena carioca, a banda constrói sua identidade misturando shoegaze, indie, emo, punk e tudo aquilo que faz sentido para traduzir emoção em som.

Antonia Diaz na voz, Eduardo Fragoso na guitarra e vocal, Miguel Bosisio no baixo, João Carneiro na guitarra e Bruno Alcântara na bateria formam um grupo que entende muito bem o que quer dizer e como quer dizer.

Mantenha Distância não é só um EP, é um conceito emocional inteiro. A metáfora dos ouriços, que precisam estar próximos para sobreviver, mas se ferem ao se aproximar demais, atravessa todas as faixas como uma espécie de espelho das relações humanas. E isso bate forte porque é real, porque todo mundo já viveu isso, porque todo mundo já sentiu esse conflito entre querer ficar e precisar ir embora.

São cinco faixas que não te deixam respirar completamente, porque cada uma te puxa para um lugar diferente, mas todas fazem parte da mesma história. Existe uma continuidade, uma narrativa, uma construção que não é aleatória. É como entrar dentro de uma máquina emocional que começa mais contida e vai crescendo até te engolir completamente.

A gente já tinha sentido algo especial em “Ossos do Ofício”, que inclusive já tinha passado pelos nossos destaques, mas aqui tudo ganha outra dimensão. O EP inteiro mostra uma banda que sabe exatamente o que está fazendo, que não tem medo de experimentar, que não tem medo de misturar, que não tem medo de ser intensa.

“Musa (da fossa)” é um dos momentos que mais ficam. Quando entra com:

“o seu mundo pode ter caído, sentir que não tem mais lugar, mas me diz qual é a minha culpa nisso…”

você já entende o nível de honestidade que essa banda está colocando na música. Não é só sobre desilusão, é sobre limite, sobre responsabilidade emocional, sobre aquele momento em que você percebe que amar alguém também pode significar se afastar. E isso dói, e isso aparece na forma como a música explode.

E então chega “Qualquer Lugar”, que fecha o EP levando tudo para outro nível. Existe um momento ali onde você entra completamente nesse universo mais dreamy, mais etéreo, quase como se estivesse flutuando, mas ao mesmo tempo afundando. E quando vem o verso:

“eu sumia se eu pudesse, eu não estava mais aqui”

é impossível não sentir. É direto, é pesado, é vulnerável. E a música cresce, cresce, cresce até virar uma explosão de guitarras, de bateria, de emoção, e depois simplesmente desaparece, deixando só o vazio.

E talvez seja exatamente isso que torna esse EP tão forte. Porque ele não tenta resolver nada. Ele não dá respostas fáceis. Ele te coloca dentro do problema, dentro da dor, dentro da dúvida, e te deixa ali para sentir.

Nós da Divergent Beats ficamos completamente atravessados por Mantenha Distância. É uma daquelas obras que mostram como o underground brasileiro está vivo, pulsando, criando coisas que muitas vezes são mais verdadeiras, mais intensas e mais necessárias do que qualquer coisa que esteja no mainstream.

A Ouriço não está só fazendo música. Está construindo um espaço emocional onde você entra e não sai igual.

E isso é raro demais.

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