Às vezes nós da Divergent Beats precisamos parar tudo para falar de artistas que não estão apenas fazendo música, mas construindo algo que atravessa o tempo. E quando falamos de Thee Automatics, estamos falando exatamente disso.
Uma banda que nasceu em 2001 em Natal, no Rio Grande do Norte, e que hoje se posiciona como uma das mais produtivas e consistentes do underground brasileiro, com mais de duas décadas de estrada, mais de vinte discos lançados e uma identidade sonora que não se perdeu no caminho, mas se fortaleceu.
Desde o início, os Thee Automatics nunca foram uma banda comum. Já em 2004 lançaram “More Senseless”, considerado o primeiro CD triplo independente do Brasil, um movimento que por si só já mostrava que eles não estavam interessados em fazer o básico. Ao longo dos anos, vieram projetos como o box “Reverse 2011–2001”, que reuniu toda a produção da primeira década, e mais tarde a coletânea em vinil “Shadowbox 2011–2020”, marcando vinte anos de existência com a mesma intensidade de quem ainda está começando. Isso não é apenas produtividade, é visão artística.
Musicalmente, o que eles fazem é um equilíbrio muito difícil de alcançar. Existe indie rock, existe noise, existe shoegaze, pós-punk, britpop, mas acima de tudo existe uma identidade muito clara. As guitarras são o centro de tudo, criando camadas que misturam melodia e ruído de uma forma quase hipnótica, como nas grandes guitar bands dos anos 80 e 90.
Não à toa, nomes como Lúcio Ribeiro já definiram o som da banda como “indie refinado”, enquanto outros enxergam ali um “rock sombrio”, carregado de atmosfera e densidade emocional.
E essa trajetória não ficou só no estúdio. Ao longo dos anos, a banda marcou presença em festivais importantes como MADA e Dosol, atravessou cidades do Nordeste, chegou a São Paulo diversas vezes e construiu um público que entende exatamente o que está sendo entregue: música feita com profundidade, com intenção e com permanência.

Em 2025, essa caminhada ganhou também um reconhecimento internacional importante com o convite do selo português Lux Records para participar de um tributo à banda The Psychedelic Furs, onde os Thee Automatics apresentaram uma versão intensa e ruidosa de “The Ghost in You”, aprovada oficialmente pela própria banda inglesa. É aquele tipo de momento que confirma que o que está sendo feito aqui não é local, é universal.
E então chegamos a “Lapse and Collapse”. Um novo disco que não soa como nostalgia, mas como continuidade viva de tudo que eles construíram até agora. Um álbum que mantém essa estética de guitarras densas, vocais melódicos mergulhados em paredes de som e letras em inglês que carregam um tipo de emoção muito específica, aquela que não precisa ser explícita para ser sentida.
Escutar esse disco é entrar em um espaço que mistura o passado e o presente com uma naturalidade impressionante. Existe algo ali que remete diretamente ao indie britânico dos anos 2000, àquela sensação meio fria, meio intensa, meio introspectiva que bandas como Interpol e Editors conseguiram transformar em identidade. Mas ao mesmo tempo, existe algo que é totalmente deles, algo que vem da vivência, da insistência e da decisão de continuar criando mesmo quando seria mais fácil parar.
O single “Seasons” sintetiza muito bem isso. Quando a banda canta:
“Take away a part of this ocean of emotions, I have no control inside these broken seasons, inside you, inside you”
não é só uma frase bonita. É um sentimento que ecoa, que fica, que se repete dentro de quem escuta. É o tipo de música que não te pede atenção, mas te prende de qualquer forma.
E talvez seja isso que mais impressiona em tudo isso. Depois de mais de vinte anos de carreira, depois de tantos lançamentos, ainda existe entrega. Ainda existe vontade. Ainda existe verdade. Em um mundo onde a música virou fluxo rápido, onde tudo passa em segundos, os Thee Automatics continuam construindo algo que pede tempo, que pede escuta, que pede presença.
Nós da Divergent Beats acreditamos muito nesse tipo de artista. Aqueles que não seguem tendência, mas constroem caminho. Aqueles que não correm atrás do algoritmo, mas continuam fazendo música como se ela ainda fosse o que sempre deveria ser: um espaço real de emoção.
E os Thee Automatics são exatamente isso.
Uma banda que não só resistiu ao tempo, mas transformou o tempo em parte da própria música.



Deixe uma resposta