A gente já tinha falado da Panta Rei aqui no Divergent Beats (leia aqui) quando ouvimos “Mofar” e já ali dava pra sentir que tinha algo diferente acontecendo, algo mais pesado, mais vivo, mais urgente. Mas com Ao Redor De Um Imenso Sol Vermelho, que tivemos a oportunidade de escutar em primeira mão, essa sensação não só se confirma — ela explode. Isso aqui não é só um álbum. Isso aqui é um coice, um manifesto, um berro exatamente como a própria banda define.

Diretamente de Santos, a Panta Rei constrói sua identidade dentro de uma psicodelia pesada que atravessa Black Sabbath, Nirvana, O Terço e Casa das Máquinas, mas sem soar como referência reciclada. O que eles fazem é outra coisa. É pegar essa herança e jogar dentro do presente com raiva, com suor, com vontade de dizer algo que está entalado. E talvez o mais importante: dizer do jeito mais cru possível.

Porque esse disco foi feito no analógico. De verdade. Gravado no alto da Serra do Mar fluminense com Lisciel Franco, usando os equipamentos no limite, sem computador, sem edição, sem correção. O que você escuta é exatamente o que foi tocado. E isso muda tudo. Porque não tem filtro entre a emoção e o som. Não tem camada protegendo. É direto. É acidentado. É humano. É falho no melhor sentido possível — aquele onde o erro vira identidade.

E isso se sente desde o primeiro segundo.

O álbum abre com uma frase que já define tudo:

“nós somos Panta Rei e viemos transformar as lágrimas de indignação”.

Não é só uma introdução. É um chamado. Um posicionamento. Um aviso de que o que vem a seguir não vai tentar agradar, vai tentar atingir.

E atinge.

São nove faixas que atravessam temas que muita gente evita: depressão no capitalismo tardio, paixão, violência revolucionária, cultura caiçara, espiritualidade, natureza, caos. Não tem moral pronta, não tem resposta fácil. Tem conflito. Tem fricção. Tem vida acontecendo de forma intensa demais pra caber em explicação.

A própria banda diz que queria fazer um rock diferente do que está rolando agora, algo que lembrasse a força de estar vivo, algo que a gente sente sendo roubado todos os dias. E esse disco entrega exatamente isso. Ele não é confortável. Ele não é linear. Ele não é previsível. Ele é uma sequência de impactos.

Do punk mais direto ao psicodélico progressivo, passando por um stoner quase ritualístico, o álbum nunca se fixa em um só lugar. Ele se move como um corpo em combustão. E talvez por isso ele funcione tão bem — porque não tenta organizar o caos, ele aceita o caos como linguagem.

E no meio disso tudo, existem momentos que ficam.

“Nos Montes” foi o que mais ficou com a gente.

Talvez porque ali existe uma suspensão do tempo. Quando eles cantam

“será que a noite é boa? onde vai dar a sua boca? será que a noite é longa? sinto meus ânimos alongarem, alonga, alonga”

parece que tudo desacelera e ao mesmo tempo se intensifica. Existe desejo, existe dúvida, existe corpo, existe presença. É quase um transe. Um momento onde a música deixa de ser só som e vira estado.

Mas o que torna esse disco ainda mais forte é o contexto dele.

A própria banda vê esse trabalho como o fechamento de um ciclo tempestuoso. Um processo longo, difícil, carregado de tensão, que agora se transforma em som. E isso vai além do álbum — a jornada de criação e a vivência por trás dessas músicas vão virar um documentário. Porque isso aqui não é só um produto final. É um processo. É história. É construção.

E isso explica muita coisa. Explica por que o disco soa tão verdadeiro. Explica por que não tem filtro. Explica por que tudo parece à beira de desmoronar e ao mesmo tempo extremamente sólido.

A gente da Divergent Beats não vê isso só como um álbum.

A gente vê como um marco.

Porque em um momento onde muita coisa soa igual, onde muita coisa parece segura demais, a Panta Rei faz o oposto. Eles arriscam. Eles expõem. Eles deixam o som sangrar.

E isso é raro. Muito raro.

Ao Redor De Um Imenso Sol Vermelho não é um disco pra escutar distraído. É um disco pra entrar. Pra sentir. Pra sair diferente.

E quando você sai… Você entende.

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