Às vezes acontece uma coisa muito específica quando a gente coloca play em uma música. Em poucos segundos, você já entende que ali existe algo maior, algo que não é só som, mas intenção, história, tempo. E foi exatamente isso que aconteceu com nós da Divergent Beats ao escutar “Valsas de um bolero”, de Renan Benini.
Renan não é um nome desconhecido. Muito pelo contrário. Ele já carrega uma trajetória forte dentro da cena independente brasileira como baixo e voz da banda Lupe de Lupe, construindo ao longo de mais de quinze anos uma identidade sólida, intensa e muito respeitada. Mas agora ele dá um passo que muda completamente a perspectiva, porque entrar em carreira solo é sempre entrar em um lugar mais exposto, mais íntimo, mais verdadeiro.
E talvez seja justamente por isso que “Valsas de um bolero” impacta tanto. Porque não é apenas uma nova música, é uma música que carrega mais de vinte anos dentro dela. Escrita na adolescência e revisitada agora, ela chega com esse contraste muito bonito entre o impulso jovem e o olhar maduro de quem volta para aquilo que criou anos atrás. É quase como abrir uma carta antiga, mas ler com uma consciência completamente diferente.
Existe algo na estrutura musical que prende imediatamente. É como se fosse um depoimento cantado, uma narrativa que não tenta impressionar pela forma, mas pela verdade. A sensação é estranha no melhor sentido possível, porque você não escuta só por escutar, você quer entender, quer acompanhar, quer descobrir o que vem depois. É uma daquelas músicas que não aceita ser deixada de fundo, ela exige presença.

Foto: Taylor Celestino
E então chegam as palavras. E é aqui que tudo ganha ainda mais força. A escrita de Renan é profundamente lírica, quase literária, e ao mesmo tempo extremamente direta naquilo que quer provocar. Quando ele canta:
“e o homem, mortal, infante, ímpio, descrente e então ateu, não percebeu que o sonho já morreu e o que permaneceu foi o carma que o corrompeu”
você não escuta apenas um verso, você entra dentro de uma cena, dentro de um imaginário, dentro de um personagem que carrega todas as contradições possíveis.
E quando a música continua com:
“e que esperar sua musa para dançar é querer viver até suicidar”
o impacto é inevitável. É forte, é intenso, é desconfortável e é exatamente isso que faz com que funcione. Não existe tentativa de suavizar a dor ou romantizar o sentimento, existe uma exposição quase crua de um pensamento que muitos sentem, mas poucos conseguem traduzir dessa forma.
Musicalmente, tudo acompanha essa construção com muito cuidado. Existe uma delicadeza nos arranjos, mas ao mesmo tempo uma firmeza na interpretação que mantém tudo equilibrado. Nada sobra, nada falta. É uma música que entende exatamente o que precisa ser e entrega isso com precisão.
Nós da Divergent Beats ficamos completamente envolvidos por “Valsas de um bolero”. É uma daquelas faixas que não só te chama a atenção, mas te faz querer ficar, ouvir de novo, entender mais, mergulhar no universo que está sendo apresentado. E talvez esse seja o maior sinal de que algo realmente importante está começando aqui.
Porque se esse é o primeiro passo do disco O Tempo Eu Quero Amar, fica claro que o que vem pela frente não é só um álbum, é um processo, é um percurso emocional que vale a pena acompanhar de perto.
E a gente não quer parar aqui. A gente quer ouvir mais.



Deixe uma resposta