Semana passada o algoritmo fez aquilo que às vezes só acontece uma ou duas vezes por ano: entregou pra gente um projeto que não dá pra ignorar, não dá pra explicar rápido e muito menos colocar dentro de uma caixinha. A primeira porta de entrada foi “Flores Sem Vício”, uma faixa de 9 minutos e 22 segundos que já começa deixando tudo muito claro: isso aqui não é só música.
É outra coisa. É experiência, é travessia, é quase um ritual.
E foi exatamente isso que sentimos. Porque quando uma música já começa te obrigando a parar, a respirar diferente e a entrar num espaço que não é confortável, você entende que ali existe algo grande. E hoje de manhã, naturalmente, a primeira coisa que fizemos foi mergulhar no EP completo Oneance.
E aí a coisa muda de escala.
Porque não dá pra chamar isso só de EP. Não dá pra chamar só de obra de arte. Não dá nem pra usar aquelas palavras que a gente normalmente usa quando algo é muito bom. Isso aqui vai além. São quatro faixas, 29 minutos e 42 segundos de uma viagem sonora que não se repete, que não segue fórmula, que não tenta agradar.
“Flores Sem Vício”, “Chifres de Âmbar”, “Serpentes e Raízes” e “Coágulo”.
Quatro capítulos de um mesmo abismo.
E o mais absurdo de tudo é que isso vem de um projeto completamente independente, criado em Brasília, por uma única pessoa, conhecida apenas como a Oneance. Não é uma banda no sentido tradicional. É um organismo criativo solitário, onde composição, performance, gravação, mixagem e masterização são feitas pelo mesmo artista, dentro de casa, num processo totalmente DIY.
E isso muda tudo.
Porque quando você escuta esse EP sabendo disso, cada detalhe ganha outro peso. Cada camada sonora, cada silêncio, cada explosão parece ainda mais intencional, mais visceral, mais pessoal. Não existe filtro, não existe interferência externa. É arte no estado mais puro possível.

credits: Marco Delgado
A própria identidade do projeto já diz muito. O nome “Oneance” nasce de um anagrama de “oceanos”, e isso faz todo sentido. Porque ouvir esse EP é exatamente isso: entrar em algo vasto, profundo, desconhecido, onde você não tem controle sobre o que vai encontrar.
E o que você encontra… não é leve.
As composições transitam entre o peso do alternative metal, do post-metal e do black metal, mas também mergulham em momentos etéreos, quase delicados, influenciados por shoegaze e folk. E o mais interessante: não existem refrões. Não existem estruturas previsíveis. Tudo é construído em progressão, em crescimento, em tensão acumulada.
É música que respira. Que se transforma. Que te engole aos poucos.
“Flores Sem Vício”, que foi o nosso primeiro contato, já entrega um dos momentos mais fortes do EP. Quando entra o trecho:
“o peso do egoísmo preme meus ombros e modela a venda que me mantém cego”
você não está mais só escutando — você está dentro. E quando continua com:
“faz-me adentrar o estuário que assombro, aonde a única estrutura exposta é o ego”
fica impossível não parar. Porque isso não é só letra. É confronto. É reflexão sobre quem a gente é quando ninguém está olhando.
E esse peso lírico atravessa todo o trabalho. As músicas são escritas como poesia, muitas vezes recitadas, criando uma sensação quase teatral, quase ritualística, como se cada faixa fosse um fragmento de algo maior, de um pensamento contínuo sobre existência, morte, natureza, religião e tempo.
E então chega “Coágulo”.
A faixa final.
E talvez o momento mais desconcertante de tudo.
Por volta do minuto 4, no meio de toda aquela construção pesada, distorcida, quase caótica, surge uma harpa. Um detalhe inesperado, delicado, que não quebra o clima — pelo contrário, intensifica ainda mais. Porque mostra o nível de sensibilidade por trás de toda aquela força.
E a letra continua te puxando pra dentro de um lugar que não é confortável, mas é impossível de ignorar.
“Com as unhas cravadas no suber arbóreo, a nudez do seu corpo reluz na bruma”.
É imagem, é dor, é beleza, tudo misturado. E então o final. Quase como uma oração. Quase como um feitiço.
“Abençoados sejam os ossos dos meus inimigos. Eles não serão perdoados e não serão esquecidos.”
E aí você fica em silêncio.
Porque não tem muito o que dizer depois disso.
Oneance não é um EP pra tocar no fundo enquanto você faz outra coisa. Não é um projeto fácil, não é imediato, não é confortável. Mas é exatamente por isso que é tão importante.
Porque ele te obriga a sentir. Te obriga a parar. Te obriga a encarar coisas que a gente normalmente evita. E dentro de uma cena independente brasileira que continua surpreendendo, isso aqui é outro nível.
Outro nível de profundidade.
Outro nível de coragem.
Outro nível de arte.
E a gente pode dizer sem medo:
Esse é um dos trabalhos mais extraordinários de 2026.



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