Muitas vezes é difícil entender até onde vai a nossa identidade como brasileiros dentro da América Latina. Existe sempre essa sensação estranha, esse debate silencioso, como se estivéssemos dentro e fora ao mesmo tempo. Mas então chegam artistas que não perguntam, não duvidam, não hesitam. Artistas que afirmam. E Anna Torres faz exatamente isso.
Com “Não esqueci que sou latina”, a cantora e compositora mineira entrega muito mais do que uma música. Ela entrega um manifesto. Um posicionamento. Uma lembrança necessária.
E o mais impressionante é como isso acontece de forma tão natural. A música mistura português e espanhol de um jeito que não parece mistura, parece uma única língua. Uma língua que atravessa fronteiras, que ignora divisões, que simplesmente existe. E isso não é fácil. Muito pelo contrário.
A cadência do português brasileiro é completamente diferente do espanhol, e poucos artistas conseguem transitar entre essas duas sonoridades sem que uma soe deslocada. Mas Anna faz isso com uma fluidez que impressiona. Você não percebe a troca, você sente continuidade.
E talvez seja exatamente aí que está a força da música. Porque ela não está só falando sobre identidade latina, ela está performando isso. Está mostrando, na prática, que essas barreiras são construções, que podem ser quebradas, que podem desaparecer quando a arte assume esse papel.
A faixa foi produzida por Swami Júnior, vencedor do Latin Grammy pelo álbum Gracias, de Omara Portuondo, e carrega uma construção sonora que começa quase onírica, com voz e baixo criando um espaço íntimo, para depois crescer com a entrada das percussões e ganhar corpo, pressão, presença. Existe uma tensão bonita entre o suave e o potente, entre o delicado e o político.
As referências aparecem, mas nunca dominam. Você sente ecos de Milton Nascimento, Mercedes Sosa, Residente e Silvana Estrada, mas tudo passa pelo filtro da Anna, tudo se transforma no mundo dela. Um mundo onde a estética também fala tão alto quanto a música.
E isso fica ainda mais claro quando pensamos nas inspirações visuais que atravessam o projeto. A força pictórica de Adriana Varejão, a sensibilidade documental de Karen Paulina, a intensidade emocional de Frida Kahlo, somadas à musicalidade de Natalia Lafourcade e Silvana Estrada, constroem um imaginário que é ao mesmo tempo delicado e político, íntimo e coletivo.
E então chegam as palavras. E é aqui que tudo se torna ainda mais direto. Quando Anna canta:
“somos de todos los cores”
existe uma simplicidade que carrega um peso enorme. E quando ela afirma:
“criaram os muros para nos dividir, mas eu sou latina e não esqueci”
não existe dúvida. Não existe metáfora escondida. Existe afirmação.
E o mais interessante é que tudo isso vem embalado em uma sonoridade que, à primeira escuta, pode parecer suave, quase relaxante. Mas basta prestar atenção nas palavras para entender que existe um manifesto ali dentro. Um manifesto que não grita, mas que permanece.

Anna Torres surge como uma dessas artistas que não só fazem música, mas constroem discurso, constroem identidade, constroem espaço. Em um momento em que a música independente ganha cada vez mais força, projetos como o dela mostram que não é mais necessário esperar validação externa para dizer algo importante.
Nós da Divergent Beats acreditamos muito nisso. E acreditamos ainda mais em artistas que conseguem transformar identidade em arte de uma forma tão bonita, tão forte e tão necessária.
“Não esqueci que sou latina” não é só um título.
É uma declaração.



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