Pra nós da Divergent Beats, começar escutando um álbum que já na primeira faixa te faz emocionar — quase chorar — é sinal de que você está prestes a viver algo inteiro. Não é só música. É travessia. É memória. É espelho.

Foi exatamente isso que aconteceu quando colocamos pra tocar Active Life, novo álbum da Cat Lover.

Quem escreve esse artigo é millennial. Viveu os anos 90. Respirou o grunge, o indie cru, as guitarras distorcidas que pareciam mais confissão do que performance. E quando Active Life começou, foi como abrir uma janela no tempo — só que com o coração de 2026 batendo forte.

Cat Lover é o projeto solo de Mateus “Matt” Rennó, e aqui já começa a primeira explosão: ele fez tudo sozinho. Composição, gravação, produção. Tudo em casa. DIY no sentido mais verdadeiro possível. E não é aquele DIY romântico de estética — é o DIY da necessidade emocional. O DIY de quem precisava colocar isso pra fora.

E colocar pra fora em inglês não é detalhe pequeno. A gente sempre fala disso: quando um artista brasileiro escolhe cantar em inglês, ele atravessa duas camadas de emoção. Porque nós, brasileiros, sentimos de um jeito muito próprio — intenso, dramático, quase físico. Traduzir isso para outra língua exige coragem. E Matt conseguiu.

A faixa de abertura, “An Active Life”, começa quase como um delírio urbano. Vozes confusas, uma sensação de caos cotidiano, até que surge a frase:

“Nós temos uma vida ativa por um motivo”

E então a música explode. Como um tsunami emocional. Guitarras entram, a bateria cresce, e você já não está mais só ouvindo — você está dentro. O álbum inteiro carrega essa estética noventista que não soa forçada nem nostálgica demais. É orgânica. É lo-fi. É melancólica. É aquela sujeira bonita de fita cassete emocional.

Em “Silver & Nickel”, quando ele canta:

“your saliva is vitamin”

é impossível não lembrar das letras cruas e quase desconfortáveis dos anos 90. Aquela sensualidade meio torta, meio vulnerável, meio desesperada. É íntimo demais.

Mas a faixa que mais nos atravessou foi “Problem Shifter”:

“All my friends, all my friends are broken… been so and again, I need to make money, turning adult.”

Essa música é uma bomba silenciosa. Porque ela fala da geração que cresceu prometida ao mundo e agora está exausta. Amigos quebrados. Ansiedade coletiva. A necessidade de ganhar dinheiro enquanto o tempo passa rápido demais. É quase impossível não pensar em “Creep” do Radiohead — aquela sensação de deslocamento permanente, de não pertencer totalmente a lugar nenhum.

E a voz de Matt… é uma dessas vozes que parecem estar arranhando o céu. Crua. Rasgada. Honesta. Tem aquela qualidade que diziam sobre Janis Joplin — quando a dor vira timbre.

Active Life não é um álbum sobre nostalgia. É um álbum sobre sobrevivência emocional numa era que exige performance constante. Fala de depressão, ansiedade, amor, bullying, pertencimento — mas sem transformar isso em slogan. É vivido. É sentido. Existe ali toda a dor de uma nova geração que parece distante dos anos 90, mas ao mesmo tempo profundamente conectada a eles. Porque as angústias mudam de forma, mas não de essência.

E talvez seja isso que faz Active Life tão bonito: ele prova que ainda é possível fazer rock alternativo relevante, potente e humano — mesmo sozinho num quarto.

É um disco que começa te emocionando. E termina te deixando diferente de como você entrou. E pra gente, isso é tudo.

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