A gente já falou de Flechas e Luzes em diferentes momentos e destaques aqui na Divergent Beats. Já cruzamos com a música da banda, já conhecíamos parte desse universo e, justamente por isso, ter agora a oportunidade de escutar O Farol das Lembranças por inteiro deixou uma sensação ainda mais bonita: estamos diante de uma banda incrível, que depois de dez anos continua crescendo, experimentando e encontrando novas maneiras de fazer sua música chegar até nós.

E talvez dez anos sejam importantes para entender tudo aquilo que existe dentro dessas 14 faixas.

Flechas e Luzes nasceu em São Paulo, em 2016, a partir do encontro de Rafael Caldas e César Giardino. Desde então, a trajetória foi sendo construída passo a passo dentro do rock autoral brasileiro. Em 2018, veio o EP Dias de Luta! Noites de Luto!, trabalho que também deu origem aos videoclipes de “O Mundo que Mudou de Cor” e “Órfãos”. Este último ganhou uma animação dirigida por Leandro Franco, que já trabalhou com nomes como Supla e Inocentes.

Em 2021, a história cresceu com o primeiro álbum, O Sopro do Caos, acompanhado por quatro videoclipes: “Perder a Linha”, “O Último Céu”, “O Peso da Vida Real” e a própria faixa-título. Em “O Peso da Vida Real”, a banda ainda contou com a participação da atriz Isabella Dragão.

Agora chegamos a 2026.

Dez anos de banda.

E O Farol das Lembranças.

Existe algo muito especial em escutar um trabalho com 14 faixas que não parecem simplesmente repetir uma mesma ideia até chegar ao final. Cada música carrega detalhes próprios, cada uma parece querer dizer alguma coisa diferente e cada mensagem encontra seu próprio espaço dentro do disco. Mesmo assim, existe um fio atravessando tudo e fazendo essas partes pertencerem ao mesmo universo.

Para a gente, esse fio é quase um grito.

Mas não estamos falando de gritar ao cantar.

É um grito contínuo que não precisa ser gritado.

É como se O Farol das Lembranças fosse um manifesto construído durante todo o disco, uma necessidade de colocar para fora pensamentos, sentimentos, experiências e inquietações que foram se acumulando. O rock alternativo oferece a estrutura, mas são as diferentes mensagens que fazem o álbum ganhar dimensão. A cada nova faixa, parece que Flechas e Luzes encontra outra maneira de continuar dizendo aquilo que precisa ser dito.

E talvez seja exatamente por isso que 14 músicas não pareçam demais.

Existe movimento.

A banda não entrega uma sequência de faixas que poderiam trocar de posição sem alterar a experiência. Existe personalidade em cada parada dessa viagem, uma vontade de construir ambientes diferentes sem abandonar aquilo que reconhecemos como Flechas e Luzes.

Nesse caminho, “Ao Meu Redor” foi a faixa que mais nos conquistou.

Existe alguma coisa muito forte nela. É gostosa de ouvir, mas ao mesmo tempo poderosa, carregando justamente essa combinação que encontramos durante o álbum inteiro: a capacidade de criar um rock que funciona musicalmente de imediato enquanto existe alguma coisa maior acontecendo por baixo. A música entra pelo som, mas permanece pelo que provoca.

E isso importa muito quando pensamos em uma banda que chega aos dez anos.

Porque sobreviver dentro da música independente brasileira já é, por si só, uma história. Continuar produzindo, lançando, criando imagens e encontrando público durante uma década exige uma vontade que vai muito além de simplesmente formar uma banda e tocar algumas músicas.

Os números ajudam a dimensionar esse caminho. Flechas e Luzes já ultrapassou 100 mil visualizações no YouTube e 90 mil reproduções no Spotify, enquanto continua ampliando sua comunidade. Mas talvez o mais interessante seja perceber que o crescimento também aparece artisticamente.

Os singles “Tão Vulnerável”, “A Fonte” e “Floresta de Aparências” anteciparam partes de O Farol das Lembranças e vieram acompanhados por videoclipes com uma estética cinematográfica que amplia o universo do álbum. Não é apenas uma preocupação com aquilo que ouvimos. Existe também uma linguagem visual sendo construída ao redor dessas músicas.

E isso combina perfeitamente com um disco chamado O Farol das Lembranças.

Um farol existe para iluminar. Uma lembrança existe porque alguma coisa permaneceu. Colocar essas duas imagens juntas parece ainda mais significativo quando estamos falando de uma banda celebrando uma década de existência.

Talvez essas 14 músicas sejam justamente isso: pequenos feixes de luz apontados para experiências, pensamentos, dores, questionamentos e tudo aquilo que Flechas e Luzes decidiu não deixar desaparecer.

A gente já conhecia a banda.

Já tínhamos falado sobre ela.

Mas escutar O Farol das Lembranças inteiro fez a gente enxergar Flechas e Luzes de outra maneira. Não apenas como uma banda que chegou aos dez anos, mas como um projeto que ainda parece ter muita coisa para dizer.

E depois de 14 faixas, fica justamente essa sensação.

O grito continua.

E a gente quer continuar ouvindo.

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