Sabem aqueles álbuns que você dá play e, depois de poucos segundos, entende que não dá pra ouvir de qualquer jeito? Que você precisa parar tudo, sentar, colocar o fone no volume alto e realmente escutar? Foi exatamente isso que aconteceu com Infinitas___Lacunas, novo álbum de Wills Tevs.

Do começo ao fim, é uma sequência de surpresas. A abertura já te coloca em outro lugar, com aquela introdução quase orquestral que parece preparar o terreno pra algo maior — como se dissesse: “fica, porque isso aqui não vai ser comum”. E não é. Quando a música entra de verdade, você já está dentro, completamente envolvido, sem vontade nenhuma de sair.

O que mais impacta não é só a construção sonora — que é absurda, cheia de detalhes, escolhas ousadas e uma produção que deixou a gente de boca aberta — é a forma como tudo se conecta com a voz do Wills. Uma voz intensa, que não só acompanha a música, mas se encaixa nela de um jeito muito natural, muito verdadeiro. Ela não tenta impressionar — ela te atravessa.

E talvez seja por isso que esse álbum fica.

Porque não é só sobre som. É sobre sensação. Sobre aquele vazio que não pesa, mas abre espaço. Um espaço que ele preenche com camadas, com ideias, com misturas que nunca parecem excesso — parecem necessidade.

A gente teve a honra de poder conversar com o Wills de forma intensa sobre esse lançamento, sobre o processo, sobre as lacunas e tudo aquilo que existe por trás desse trabalho.

E essa é a nossa conversa.

O álbum começa com uma introdução quase orquestral que parece dizer “fica, escuta, isso vai ser diferente”. Em que momento você entendeu que a experiência precisava começar assim — quase como um convite para entrar no seu mundo?

Wills: Eu acho que a porta de entrada em um álbum é essencial, para quem deu o play só por curiosidade acabar sendo puxado para dentro. É um convite para um mundo lúdico, em que é importante se desconectar do que você está passando no seu dia para iniciar uma jornada imersiva. Então os primeiros segundos funcionam como uma transição. Durante essa jornada, é certo que você vai acabar se reconectando consigo mesmo em diferentes aspectos da sua vida, mas eu prefiro introduzir isso aos poucos do que dar um choque. Da mesma forma como você entra no mar molhando os pés, vai se acostumando com a temperatura, até ficar confortável para passar um tempo no fundo.

Mas, preciso dizer, essa introdução não foi planejada, ela aconteceu a partir da primeira versão da música “Parque de Diversão”, que eu compus como um arranjo de orquestra inspirado em Eleanor Rigby, dos Beatles. Quando eu levava essa música para os shows, a gente fazia como banda a transposição dos arranjos para guitarra, baixo e bateria. E isso soava tão bem ao vivo que eu percebi que precisava gravar a versão roqueira, só que mantendo essa entrada orquestral.

Existe uma sensação muito forte de vazio ao longo do álbum, mas não um vazio pesado — quase um vazio cheio de possibilidades. Esse vazio, pra você, é mais um lugar de dor ou de liberdade?

Wills: Eu acredito que a dor e a liberdade andam juntas. No sofrer e no prazer geralmente existem limites mentais e corporais dessas sensações, pelo menos pra mim. Eu nunca consigo encontrar a plenitude ou o vazio total, mas vou vivendo todas as cores e sons que existem nesse imenso intervalo. Minha mente é programada para sentir dentro do tolerável, talvez seja uma forma de autocuidado, preservação, por medo do desconhecido.

Tem gente que, infelizmente, entende na dor absoluta que o fim é a única forma de liberdade. Eu também lido com esse dilema de que não existir seria eliminar qualquer dor, mas isso dura pouco. Acabo acordando no dia seguinte com uma dose de motivação que me leva a aceitar as dores e conviver com elas porque tenho coisas ainda a buscar, possibilidades a explorar. Quem sabe as minhas músicas possam ajudar outras pessoas a enxergar que sempre existem caminhos pela frente. Este seria meu triunfo, pois componho pensando também na forma como os outros recebem.

Sua música transita entre muitos gêneros — pop rock, MPB, punk, latinidade —, mas ainda assim soa completamente coesa. Você enxerga essa mistura como busca por identidade ou como recusa em se limitar a uma só?

Wills: Fico extremamente contente por você ter ouvido o álbum e percebido coesão, mesmo nessa loucura de diferentes ambientações. Sou eclético, mas me considero muito cuidadoso nesse ponto, pois tenho uma identidade artística a zelar para ganhar meu espaço. Dá um frio na barriga quando alguém novo vai ouvir o álbum, se vai encontrar esse fio condutor que amarra tudo. Quando boto uma tracklist em determinada ordem, fico ouvindo repetidas vezes para saber se o caminho é fluido ou se tem pedras.

Eu reverencio bandas e artistas que constroem uma carreira diversa e sólida conquistando reconhecimento pela autenticidade. Adoro me inspirar em gente que criou seu próprio universo, que não se repete muito e nem se prende a um único gênero musical. São inclassificáveis. Eu me vejo assim, que a minha galera não vai me ouvir de tabela porque gosta de outras bandas do mesmo nicho, mas porque quer ouvir especificamente o meu som. 

Acho que a humanidade se perdeu quando começou a colocar as coisas em caixinhas, pois isso facilita encontrar o público-alvo e gerar vendas, afinal, tudo gira em torno do dinheiro, até a arte. Mas, como dizem, definir-se é limitar-se. Cada um de nós é uma infinidade e, se a arte fosse realmente livre, a gente não dependeria de forjar uma só identidade para receber um selo de aprovação.

Me canso de receber análises do meu trabalho que se contentam em avaliar a minha qualidade pela lente da (falta de) homogeneidade, com conclusões precipitadas ao ouvirem só duas faixas diferentes entre si. A pressa para rotular está na opinião pública, das redes sociais, mas também contamina a mídia e o mercado. Ainda me atrapalha o fato de que nem todo mundo vai romper a camada superficial e se permitir ouvir meu álbum completo.

Faixas como “PARQUE DE DIVERSÃO” parecem olhar tanto para o mundo quanto para dentro de si. Foi mais difícil encarar as próprias lacunas ou observar as lacunas do mundo ao seu redor?

Wills: Eu acredito que cada pessoa vai se conectar com “PARQUE DE DIVERSÃO” como uma revelação de suas próprias lacunas ou como as lacunas que observa ao seu redor. A mensagem dessa música é muito literal, praticamente desenha o tipo de pessoa que todo mundo tem (ou já teve) no seu convívio. Para alguns, a carapuça vai servir, outros talvez rejeitem isso. Mas espero que a maioria da galera que me acompanha, que já conhece quem sou e se identifica com meus posicionamentos, entenda como uma sátira direcionada àquelas pessoas que já cansamos de tentar diálogo, pois são praticamente imutáveis.

Mas, como a arte imita a vida, é curioso perceber que, se a abertura do álbum tira um sarro de outras pessoas, o desenvolvimento do disco lida muito mais com questões internas. A gente aponta o dedo primeiro e só depois, no nosso íntimo, para pra pensar nas nossas frustrações. Até mesmo quando as letras das músicas falam do outro, pode ser uma forma de não aceitar que vários problemas moram na gente mesmo. Reconhecê-los é bem mais difícil, às vezes são buracos que carregamos a vida toda.

Existe algo na sua voz que não só canta — ela carrega sentimento de um jeito muito direto, quase íntimo. Quando você grava, você pensa mais em técnica ou em se permitir sentir tudo naquele momento?

Wills: Eu tenho um jeito cancionista de criar, pois percebi que esse território é muito mais fértil e produtivo pra mim do que ser um cara sozinho pensando em riffs e estruturas instrumentais. Ter uma banda criando junto seria completamente diferente, muitas vezes a textura das guitarras, a escolha dos timbres e as bandas de referência acabam sendo o prato principal, enquanto a voz tenta desenhar melodias que acompanhem o som.

Já quando o som principal da música nasce das melodias que você escolhe cantar, é natural que os vocais sejam o centro das atenções. A canção é aquela coisa que nasce do íntimo, muito pura, é o lalaiá na hora do banho. Então, eu gravo como eu sinto essas melodias soando dentro da minha cabeça. A técnica existe para levar a canção para o lugar onde ela precisa chegar, o que a música está pedindo depois que você já incorporou mais elementos de produção. Sem a técnica, os meus sentimentos não encontram ouvidos atentos.

O álbum fala sobre frustração, mudança, autodestruição, propósito… mas nunca soa derrotado. Você acha que criar esse trabalho foi uma forma de se entender ou de aceitar que talvez nem tudo precise ser entendido?

Wills: Como bom agnóstico, eu afirmo que nós nunca entenderemos tudo. Seria até pretensioso para um mero artista ousar resolver todas as questões científicas e filosóficas. Existem séculos de gente estudando sobre o universo e a existência. O papel da minha arte é interpretar os estímulos que a vida me apresenta, humildemente, sob a minha ótica.

Algumas questões que me assolam eu só consigo botar pra fora como impulso, nem sempre entendo o porquê eu quis escrever sobre certos temas. Se eu ainda não consegui soar derrotado, pode ser que ainda não tenha atingido esse nível de profundidade, pois a derrota me encontra diariamente hahaha… Mas pode ser também a minha insistência em me agarrar a qualquer fio de esperança.

Certamente, admitir meus sentimentos faz parte do meu processo de amadurecimento e me trouxe até aqui sendo o mais transparente possível, comigo mesmo e com os outros. Reprimir sentimentos adoece ainda mais as pessoas. Entender e aceitar as coisas é aliviar um pouco a carga que é pesada.

Em um mundo onde tudo parece cada vez mais rápido e genérico, seu som vai na direção oposta — ele pede atenção, tempo, escuta. Você sente que está nadando contra o fluxo ou criando o seu próprio caminho?

Wills: Na verdade, eu só consigo ser assim. Os artistas que me inspiram me ensinaram em suas trajetórias que uma conexão profunda só se faz com tempo e dedicação. Aprendi que muita coisa é passageira, que aquilo que viralizou rápido hoje, ninguém mais liga amanhã. Então, será que vale a pena mirar na ascensão pelos 15 minutos de fama, deixando suas criações em segundo plano, ou fazer as melhores músicas que você é capaz simplesmente pelo orgulho de ter conseguido se expressar através da arte?

Pra mim, é incrível chegar ao meu segundo álbum, tomando o tempo que foi necessário para lançar dignamente. Devido ao meu dia a dia em um trabalho formal, que é a minha atual fonte de renda, não encontro tempo para fazer tantas coisas que me colocariam no fluxo constante do algoritmo, então as minhas chances de repercussão são remotas. E está tudo bem assim, já que o principal está sendo bem feito e existem pessoas que me ouvem, ainda que em número pequeno.

Para quem vai ouvir Infinitas Lacunas pela primeira vez através da Divergent Beats — talvez em um momento de dúvida, vazio ou transição — o que você gostaria que essa pessoa levasse com ela depois do último acorde?

Wills: Eu tenho muito mais curiosidade sobre o que essas pessoas vão me trazer a respeito do álbum. Realmente não sei o que esperar, mas tenho algumas pistas, já que algumas dessas músicas são singles já lançados antes. Por isso, coloquei a nova versão de PARQUE DE DIVERSÃO [se um vazio te encontrar] logo no início, que é pra quem me acompanha saber que está recebendo um trabalho novo, de fato.

Aí, tem os singles para cantar junto e o final, que reserva duas novidades: a música [FÔRMA] [MOLDE] é uma parceria com o cantor argentino Agustín Dettbarn, que canta suas partes em espanhol, e IMPOSTOR [me diz o que é que falta] é uma versão melhor acabada de um single de 2024, à época feita com antigos produtores. 

Pra atiçar a curiosidade, alguns spoilers: uma delas é a música mais diferente da minha carreira e a outra não é cantada nem tocada da mesma maneira de antes. Então, ouça tudo com atenção e depois me diga se o álbum preencheu alguma lacuna dentro de você. Só não esqueça que as lacunas são infinitas e não há nada que a gente possa fazer contra isso.

Fotos: Nik Volodko



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