A gente não esperava por essa colaboração. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou tudo ainda mais especial. Quando vimos Pablo Vermell e Supervão juntos em “Luzes Que Vão Passando”, já existia uma curiosidade enorme sobre como esses universos iriam se encontrar, mas nada preparava para o tamanho emocional dessa música.

Nós, da Divergent Beats, ficamos realmente de boca aberta. Porque existem encontros musicais que simplesmente fazem sentido instantaneamente, como se os artistas já compartilhassem o mesmo espaço emocional antes mesmo da colaboração acontecer. E aqui isso acontece de forma muito natural.

“Luzes Que Vão Passando” é uma música extremamente bonita. Uma dessas faixas que parecem abraçar o ouvinte de maneira silenciosa, sem precisar exagerar em nada. Existe uma melancolia muito presente nela, mas uma melancolia contemplativa, quase confortável. Aquele sentimento típico dos dias frios, das cidades cinzentas, dos momentos em que você olha o movimento acontecendo do lado de fora enquanto continua parado dentro da própria cabeça.

E a música já começa de um jeito impossível de ignorar:

“hoje o dia tá frio e não é nenhum fio de lã que vai resolver o vazio”.

É uma abertura linda porque imediatamente estabelece a atmosfera emocional da faixa inteira. Não estamos falando apenas de frio climático. Estamos falando daquele vazio silencioso que aparece em períodos de isolamento, nostalgia e desaceleração emocional. E Pablo Vermell consegue traduzir isso de uma forma extremamente humana.

A faixa reconstrói “Frio”, uma das músicas de destaque do álbum Futuro Presente lançado por Pablo em 2025, mas aqui tudo ganha novas camadas emocionais através da participação da Supervão. As guitarras gravadas por Mario Arruda e Leonardo Serafini ampliam completamente a sensação de profundidade da música.

Existe um dream pop muito delicado atravessando a faixa, mas também uma forte presença do rock alternativo dos anos 90, aquela sensação meio etérea e melancólica que lembra bandas que conseguiam transformar saudade em textura sonora.

E talvez seja exatamente isso que faz “Luzes Que Vão Passando” funcionar tão bem.

Ela consegue soar completamente Supervão e completamente Pablo Vermell ao mesmo tempo. A música carrega essa identidade nostálgica, emocional e quase cinematográfica que a Supervão costuma construir, mas também preserva toda a vulnerabilidade romântica e contemplativa presente no trabalho do Pablo. Nenhum dos artistas desaparece dentro da colaboração. Pelo contrário. Eles se fortalecem mutuamente.

A composição nasceu durante a pandemia, e isso aparece muito claramente na música. Pablo explicou que a letra surgiu desse momento onde o tempo parecia suspenso enquanto o mundo continuava acontecendo do lado de fora. E talvez muita gente ainda carregue emocionalmente essa sensação até hoje. A ideia das luzes passando enquanto você permanece imóvel cria uma imagem extremamente forte. É quase como observar a própria vida acontecendo em velocidades diferentes.

Nós sentimos muito isso ouvindo a faixa.

Existe um silêncio emocional dentro dela que diz muito mais do que qualquer explosão sonora poderia dizer. Tudo aqui é construído com cuidado: as guitarras em camadas, a atmosfera nebulosa, os espaços deixados entre os versos, o modo como a melodia parece flutuar lentamente enquanto a letra afunda mais fundo. É uma música que respira.

E ao mesmo tempo, ela também funciona como uma ponte muito bonita para o próximo momento da carreira do Pablo Vermell. “Luzes Que Vão Passando” é o último single antes da chegada oficial de Futuro Presente Deluxe, previsto para junho. E o conceito por trás desse projeto é uma das coisas mais interessantes desse lançamento. Pablo entende que um álbum não termina quando é lançado. Ele continua vivo, crescendo, mudando e se transformando através de novas colaborações e novas leituras emocionais das músicas.

Isso é muito bonito porque conversa diretamente com a própria ideia da memória e da emoção humana. Nada fica estático. As músicas também não.

O Futuro Presente Deluxe amplia ainda mais esse universo ao reunir artistas de diferentes lugares e cenas. Entre os nomes internacionais aparecem a argentina Lívia e a banda norte-americana Valiant Blues. No Brasil, participam a cantora amazonense Corama e Lauis, tecladista da banda Pelados. Essa mistura reforça ainda mais o diálogo do Pablo Vermell com a cena alternativa independente contemporânea, uma cena onde sensibilidade e identidade artística continuam sendo muito mais importantes do que fórmulas prontas.

E talvez seja exatamente isso que torna “Luzes Que Vão Passando” tão especial.

Ela não tenta impressionar pela grandiosidade.

Ela impressiona pela sinceridade.

É uma música feita de atmosfera, de ausência, de saudade e de pequenos detalhes emocionais que vão crescendo lentamente dentro de quem escuta. E quando termina, fica aquela sensação muito específica dos dias frios: uma mistura de vazio, beleza e contemplação que não dói completamente, mas também não vai embora.



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