Não sei se acontece com muitos de vocês, mas existem momentos em que um álbum chega exatamente quando você precisava escutá-lo. Como se aquela obra já estivesse esperando silenciosamente por você antes mesmo do play começar.
Foi exatamente isso que sentimos ouvindo Setor, novo álbum de Pedro Constantino. Nós, da Divergent Beats, tivemos a enorme possibilidade de escutar o disco em primeira mão e foi uma experiência profundamente sensorial, uma viagem construída por imagens, palavras, personagens e sons que ficaram dentro da cabeça muito depois da última faixa terminar. E não falamos isso de forma leviana: Setor é, sem dúvida, um dos melhores álbuns brasileiros de 2026.
Existe algo muito raro acontecendo aqui.
Pedro Constantino faz parte de um tipo de música que exige verdade para funcionar. Não é um gênero sustentado apenas por estética, arranjo bonito ou conceito. A canção urbana brasileira precisa de intenção emocional real, de observação humana, de um olhar atento para o mundo e para as pequenas coisas. E Pedro consegue fazer isso de uma maneira impressionante. Setor é um álbum extremamente detalhado. Cada música parece carregada de pequenas observações que, juntas, constroem um retrato gigantesco da vida urbana brasileira.
Você entra nessa viagem entendendo que tudo ali nasce de deslocamento, memória e pertencimento. Entre o interior paulista, Goiânia e São Paulo, Pedro transforma experiências pessoais em algo muito maior, quase coletivo. O disco fala de bairros, ruas, botecos, praças, trabalhadores, velhos, crianças, personagens marginais e afetos cotidianos de uma maneira tão humana que, mesmo sem conhecer Goiânia profundamente, você sente que já esteve nesses lugares.
E talvez seja exatamente essa a grande força de Setor.
O álbum consegue transformar o particular em universal.
O próprio título já aponta para isso. Em Goiânia, “setor” é usado como sinônimo de bairro, e essa palavra inicialmente causava estranhamento em Pedro, paulista de Olímpia radicado na capital goiana. Mas ao longo dos anos vivendo entre a Vila Itatiaia e depois o centro de Goiânia, essa palavra começou a ganhar outro peso emocional. O setor deixou de ser apenas localização geográfica e virou espaço afetivo. Um lugar onde convivem solidão, violência, solidariedade, decadência, humor, sobrevivência e memória.
E tudo isso atravessa o disco inteiro.
Musicalmente, Setor também impressiona muito pela forma como aproxima universos aparentemente distantes. Existe samba paulista, sertanejo de raiz, moda de viola e canção urbana convivendo dentro das músicas sem soar forçado em nenhum momento. Pedro entende profundamente a relação entre palavra e som. Você sente que cada instrumento, cada pausa e cada frase foram pensados para carregar emoção e imagem ao mesmo tempo.
Nós já amávamos a música dele desde “Vão do Eixo”. Quando aquele single saiu, já existia a sensação de que algo muito forte estava chegando. A atmosfera densa da música, o samba paulista atravessando a narrativa urbana e o modo como a cidade parecia personagem da própria faixa já mostravam um compositor extremamente atento ao detalhe humano. Depois veio “Só Não Morre Essa Canção”, parceria com Romulo Fróes, trazendo um lado ainda mais íntimo, quase falado, onde cada palavra parecia pesar emocionalmente dentro da melodia.
Mas ouvir Setor completo é outra experiência.
Porque o álbum cria continuidade emocional. Ele parece uma longa caminhada pela cidade, onde cada esquina revela uma memória diferente. E quando “Na Rua” abre o disco, a sensação é imediata: você entende que está entrando em um universo extremamente vivo. Nós ficamos realmente chocados no melhor sentido possível. Não apenas pela beleza das composições, mas pela riqueza de detalhes que o álbum entrega a cada escuta.

É um disco que cresce.
Cada vez que você volta, percebe uma nova frase, uma textura instrumental, um personagem escondido dentro da letra. Existe um cuidado gigantesco na construção desse trabalho. A direção artística de Romulo Fróes ajuda muito nisso, assim como a produção assinada por Pedro Constantino, Rodrigo Campos e o próprio Fróes. A mixagem e masterização de Frederico Pacheco dão ao álbum uma sonoridade muito orgânica, onde tudo respira naturalmente.
Pedro Constantino já vinha construindo um caminho importante na cena de Goiânia desde Esboço (2021) e do EP Criar Demanda Vol. 1 (2024), além das colaborações como compositor, produtor e articulador da cena independente local. Mas em Setor existe claramente um salto artístico enorme. Você sente um compositor completamente consciente da própria linguagem.
E talvez o mais bonito seja justamente a humanidade do disco.
Mesmo quando fala sobre decadência urbana, precariedade ou solidão, Setor nunca perde delicadeza. Existe carinho pelas pessoas retratadas nessas músicas. Existe amor pelos espaços urbanos, mesmo em suas contradições. Goiânia aparece aqui como roça e metrópole ao mesmo tempo, intimidade e concreto convivendo lado a lado.
Nós, da Divergent Beats, escutamos muitos álbuns durante o ano inteiro. Mas poucos conseguem realmente parar o tempo da maneira que Setor conseguiu. É um disco que não tenta apenas impressionar tecnicamente. Ele quer criar memória dentro de quem escuta.
E consegue.
Porque no final, depois de todas essas ruas, personagens, bares, sons e imagens atravessando a cabeça, sobra exatamente aquela sensação rara que só grandes álbuns conseguem deixar: a sensação de que você viveu alguma coisa junto com ele.



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