Escutar Inferno: (Xe/Xem) foi entrar dentro de um grito emocional que te atormenta a cabeça no melhor sentido possível. Um daqueles trabalhos que te deixam completamente aberto — olhos, mente, corpo — porque não existe como sair intacto depois de mergulhar nesse universo criado por Starly Kind. E talvez seja exatamente isso que torna esse lançamento tão forte. Ele não tenta ser confortável. Ele quer te puxar para dentro dessa espiral de fragilidade, monstruosidade, desejo, medo e aceitação.
E naturalmente chega mais uma pedrada marcada pela Alter Ego Produções e pela CorpoRAT Records, que continuam mostrando um olhar extremamente apurado para projetos que não seguem fórmulas fáceis. Porque Inferno: (Xe/Xem) é um EP que, na nossa visão, ultrapassa qualquer definição simples de género.
Existe shoegaze, doom metal, screamo, dark alternative, glitch, jazz, música brasileira, noise indie, post-grunge. Mas no final tudo vira uma coisa só: uma experiência emocional extremamente intensa. O mais impressionante é que, mesmo navegando entre tantas referências, Starly Kind nunca soa perdido.
Pelo contrário.
Existe uma identidade muito clara atravessando tudo isso. Uma agressividade quase demoníaca convivendo com doçura, vulnerabilidade e beleza estética. E essa mistura é o que torna o projeto tão fascinante. A estética visual de Starly Kind carrega exatamente essa dualidade: correntes, renda branca, bichos de pelúcia, espinhos, maquiagem etérea, imagens infernais e uma delicadeza melancólica coexistindo o tempo todo. É lindo porque é estranho. É acolhedor porque é perturbador.
E isso se traduz diretamente na música.
O EP de seis faixas foi coproduzido por Starly Lou Riggs ao lado de Leo Fazio, que também assina os baixos da maior parte do projeto. Com piano de Matheus Vieira e mixagem/masterização de Iran Ribas no Veredas Áudio, o trabalho ganha uma profundidade sonora impressionante. Os títulos das músicas nasceram primeiro como versos de um poema, e isso explica muito sobre a estrutura do EP: tudo parece literário, como se cada faixa fosse um capítulo de uma descida emocional cuidadosamente construída.
A música que mais nos atravessou foi “And the Devil Watch Me Dance”.
Existe algo naquela faixa que é difícil de explicar racionalmente. A escolha das palavras, a divisão das dinâmicas, a maneira como a voz cresce e implode dentro da instrumentalidade criam uma sensação quase física. Parece uma mistura entre a dramaticidade emocional de Florence + the Machine, Poppy o peso existencial do grupo canadense Dilly Dally e aquela melancolia agressiva do começo de Hole. Mas ao mesmo tempo nada soa derivativo. Porque Starly Kind pega essas referências e transforma tudo numa linguagem muito própria.
A voz de Starly Lou Riggs é central nisso tudo.

Não é uma voz construída para soar perfeita. É uma voz construída para transmitir ruptura. Em alguns momentos ela sussurra como se estivesse implorando sobrevivência. Em outros, explode em gritos que parecem arrancados diretamente do peito. Existe um senso existencial muito forte nessa interpretação. Uma sensação de alguém tentando encontrar lugar dentro de um mundo que constantemente empurra corpos queer para as margens.
E o projeto fala exatamente sobre isso.
Starly Kind nasce dessa relação entre queeridade e monstruosidade social. Riggs descreve o projeto como um alter ego formado pelos fragmentos da infância, um espaço para reunir todas as partes rejeitadas e reconstruí-las sem binarismos. “Sou não-binária em tudo — você não pode me colocar em uma caixinha”, explica. E talvez o mais poderoso seja perceber como essa frase atravessa todo o EP, não só conceitualmente, mas musicalmente. As músicas recusam estabilidade. Elas mudam abruptamente, transitam entre géneros, quebram estruturas e transformam desconforto em linguagem.
O single “Starly Kind” funciona como preâmbulo narrativo desse inferno pessoal. A faixa abre com baixo sujo e vocais etéreos enquanto Riggs canta:
“I fell to the ground in Roswell / Neighbor to the gates of hell”
conectando sua própria história — nascida em Roswell, Novo México — com essa figura quase alienígena que atravessa o projeto inteiro. O inferno aqui não aparece só como destruição. Aparece como espaço de aceitação. “Essa música é sobre encontrar conforto no inferno”, diz Riggs. Primeiro implorando para escapar. Depois entendendo que sobreviver talvez signifique aprender a existir dentro desse caos.
E talvez seja exatamente isso que torna Inferno: (Xe/Xem) tão especial.
Ele não tenta organizar emoções.
Ele deixa tudo transbordar.
O resultado é um EP assustador, visceral, cinematográfico e estranhamente reconfortante. Um trabalho que transforma dor em estética sem nunca esvaziar a honestidade emocional. E quando termina, fica aquela sensação rara de ter encontrado um artista que não está tentando se encaixar em absolutamente nada.
Starly Kind não pede espaço.
Elu cria um universo inteiro.



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