Música é pra sempre. E talvez uma das coisas mais bonitas da música seja justamente a capacidade que ela tem de transformar completamente o modo como sentimos as nossas emoções, as nossas memórias e até os nossos próprios pensamentos.

Existem artistas que fazem músicas para tocar ao fundo, e existem artistas que constroem experiências que pedem presença total de quem está escutando. Foi exatamente isso que sentimos ouvindo Memórias Desconexas Ou O Eterno Retorno Do Mesmo, o primeiro álbum de Miguel Carlos. Desde o primeiro play, com a faixa “Revotril”, já ficou muito claro para nós, da Divergent Beats, que Miguel pertence a um grupo muito específico de artistas brasileiros que estão criando algo realmente diferente dentro da música contemporânea.

Existe uma liberdade artística muito forte nesse álbum. Uma coragem de misturar gêneros, atmosferas e sensações sem tentar suavizar nada para soar mais fácil ou mais comercial. E isso é lindo, porque o disco inteiro parece vivo. Você começa escutando uma faixa profundamente conectada à MPB, e de repente tudo muda de direção: entram texturas psicodélicas, grooves que lembram soul, elementos de baião, passagens quase progressivas, momentos extremamente experimentais. E nada disso soa exagerado ou confuso. Pelo contrário, tudo parece existir exatamente onde deveria estar.

Nós, da Divergent Beats, já vimos outros artistas brasileiros caminhando por essa linha mais avant-garde da música independente, como Dezert Horse ou Ganwalk, artistas que entendem que experimentar não significa perder emoção. Miguel Carlos faz parte desse mesmo movimento, mas com uma identidade extremamente própria, muito conectada à música brasileira e às emoções humanas que atravessam o álbum inteiro.

E talvez seja exatamente isso que torna o disco tão especial: ele nunca parece frio ou intelectual demais. Mesmo nas construções mais complexas, existe coração. Existe vulnerabilidade. Existe humanidade.

Miguel Carlos é vocalista, compositor, produtor, multiinstrumentista e intérprete das próprias canções. Envolvido com música desde os nove anos de idade, participou de bandas e projetos com músicos influentes do sul do estado, experiência que acabou moldando essa identidade artística tão aberta e tão cheia de referências. E as referências são realmente enormes: The Beatles, Milton Nascimento, Secos & Molhados, The Beach Boys, Dominguinhos, Zé Ramalho, Cassiano e Tim Maia aparecem como influências que ajudam a entender o tamanho do universo sonoro que ele constrói aqui.

Mas o mais interessante é perceber que nenhuma dessas referências domina o álbum. Elas aparecem dissolvidas dentro da personalidade do Miguel, que consegue transformar tudo em algo muito pessoal. Isso fica ainda mais forte quando pensamos no próprio processo de criação do disco. Memórias Desconexas Ou O Eterno Retorno Do Mesmo foi gravado quase inteiramente por ele, assumindo teclados, acordeon, contrabaixo, percussão, guitarra, violão e bateria. A co-produção ao lado de Xico Chagas — que também participou tocando bateria e teclados em algumas faixas — ajuda a dar ainda mais profundidade para esse universo sonoro cheio de detalhes, mudanças e camadas emocionais.

E o álbum funciona justamente porque parece livre.

Você sente que Miguel não estava tentando se encaixar em expectativa nenhuma. As músicas crescem naturalmente, respiram, mudam de forma e seguem caminhos inesperados sem perder a essência emocional.

Existe um contraste muito bonito entre as melodias e as letras, especialmente em momentos como “Canção da Dissimulação”, quando ele canta:

“estou cansado de tentar ser forte, não posso ser vulnerável porque o show tem que continuar, tenho que fingir que o show existe”.

Nós achamos esse trecho extremamente forte porque ele traduz uma sensação muito contemporânea de desgaste emocional escondido atrás de performance constante, enquanto a instrumentalidade da música continua viva, rica e quase luminosa.

Esse contraste aparece diversas vezes ao longo do disco. Existe beleza, mas também existe exaustão. Existe movimento, mas também uma sensação de repetição emocional, algo que conversa diretamente com o próprio título do álbum. As memórias parecem se embaralhar, voltar, desaparecer e reaparecer de formas diferentes. E talvez por isso a experiência de ouvir o disco inteiro seja tão intensa, porque ele cria uma sensação contínua de viagem emocional.

O encerramento com “Saudade da Aflição” é um dos momentos mais bonitos do álbum. A faixa cresce lentamente, criando uma atmosfera etérea e quase suspensa, como se depois de todas as explosões sonoras e emocionais restasse apenas essa sensação estranha entre nostalgia, vulnerabilidade e contemplação. É um final que não tenta entregar respostas fáceis, mas que deixa uma marca muito forte depois que o álbum termina.

E talvez seja exatamente isso que Miguel Carlos esteja fazendo aqui: criando música que continua existindo dentro de quem escuta mesmo depois do silêncio.

Memórias Desconexas Ou O Eterno Retorno Do Mesmo não é apenas um álbum experimental ou uma mistura de gêneros brasileiros. É um trabalho profundamente humano, construído por um artista que entende emoção como matéria-prima principal da própria arte. E dentro da música independente brasileira atual, isso é uma coisa rara e extremamente necessária.

Instagram Miguel Carlos



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