Quando a gente fala de Renan Benini, a gente fala de um grandíssimo artista. Um daqueles artistas que possuem essa capacidade rara de criar músicas e escrever letras que conseguem emocionar em qualquer momento da vida.
Não importa a idade, não importa aquilo que você viveu ou está vivendo: existe algo no modo como ele escreve que entra diretamente dentro das emoções mais escondidas de quem está escutando. E foi exatamente isso que aconteceu conosco ouvindo “Em Família”, segundo single do disco solo de estreia do artista, previsto para o final de maio.
Uma faixa de sete minutos e trinta segundos que funciona quase como uma viagem cinematográfica, emocional e sensorial do começo ao fim. E talvez uma das coisas mais bonitas seja justamente o modo como tudo começa. Sem exageros. Sem explosões imediatas. Apenas verdade. “Eu acordei sem acreditar, tão cedo assim, não tem graça. Eu concordei, fingi aceitar, só culpam a mim nessa casa.” É impossível escutar esses primeiros versos e não sentir imediatamente aquele peso silencioso que existe dentro de muitas relações familiares.
Porque “Em Família” não tenta romantizar família. Não tenta criar uma ideia perfeita de afeto. Pelo contrário. A música entende perfeitamente aquela mistura confusa entre amor, desgaste, cuidado, irritação, acolhimento e dor que existe dentro da convivência familiar. E talvez seja exatamente por isso que ela funciona tão profundamente.
Nós da Divergent Beats acreditamos muito que as músicas mais fortes são aquelas que conseguem transformar sentimentos extremamente específicos em algo universal. E Renan Benini faz isso de forma absurda aqui. Existe algo muito humano no modo como ele escreve. Você sente que essa música nasceu de vivência verdadeira. O que faz ainda mais sentido quando entendemos o contexto da composição.

“Em Família” foi escrita quando Renan tinha 23 anos, durante um período extremamente delicado da própria vida. Depois de interromper a faculdade e deixar Belo Horizonte, o artista retorna para a casa da família em Muriaé, carregando consigo todas as frustrações, dúvidas e inseguranças daquele momento. A música nasce exatamente desse espaço emocional. Da tentativa de entender o próprio lugar dentro da família, dentro da vida e dentro do futuro.
E talvez o trecho mais devastador emocionalmente seja justamente quando ele canta:
“e essa dor em família tem é jeito de paz”.
Porque poucas frases conseguem explicar tão perfeitamente aquilo que tantas pessoas sentem, mas quase nunca conseguem colocar em palavras. Existe dor. Existem conflitos. Existem mágoas. Mas também existe amor. Existe vínculo. Existe uma paz estranha escondida dentro do caos emocional familiar.
Musicalmente, “Em Família” cresce de maneira impressionante ao longo dos seus sete minutos. A instrumentação vai se tornando cada vez mais intensa enquanto o diálogo emocional entre Renan Benini e Bruna Carvalho se desenvolve dentro da música. E isso transforma a faixa quase em uma peça cinematográfica. Não parece apenas uma canção. Parece um filme emocional acontecendo lentamente dentro dos teus ouvidos.
Os arranjos de violino e violoncelo executados por Samuel Gomide e Rodrigo Garcia dão uma profundidade absurda para a composição. As cordas entram como se acompanhassem o aumento da tensão emocional dentro daquela casa imaginária criada pela música. E tudo isso fica ainda mais bonito sabendo que o próprio Renan imaginou a estrutura orquestral da faixa enquanto caminhava pela Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, antes mesmo de tocar qualquer instrumento.
A participação de Bruna Carvalho também é essencial para a força da música. Porque ela não aparece apenas como backing vocal ou complemento melódico. Existe realmente um diálogo acontecendo. Duas perspectivas coexistindo dentro do mesmo espaço familiar. Isso torna tudo ainda mais íntimo e emocional.
“Em Família” faz parte do disco solo de estreia de Renan Benini, trabalho que reúne composições escritas entre os 13 e 24 anos do artista. E isso talvez seja uma das coisas mais fascinantes em todo o projeto. Porque o álbum parece funcionar como uma abertura completa de arquivo emocional. Como se Renan estivesse finalmente mostrando ao mundo partes muito íntimas da própria trajetória, construídas paralelamente aos mais de quinze anos dele como baixista e vocalista da Lupe de Lupe.
A produção musical assinada por Thiago Corrêa e Henrique Matheus, junto da coprodução de Leonardo Marques, ajuda a música a alcançar um equilíbrio muito bonito entre delicadeza e intensidade. Nada soa excessivo. Tudo parece existir exatamente no lugar certo emocionalmente.
E talvez seja isso que torna “Em Família” tão poderosa. Ela não tenta impressionar através de grandes explosões artificiais. Ela impressiona porque é verdadeira. Porque entende a complexidade das relações humanas. Porque fala de família sem perfeição. Porque transforma vulnerabilidade em arte.
E honestamente? Poucas músicas recentes conseguiram deixar a gente tão emocionalmente destruído no melhor sentido possível.



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