Para quem viveu realmente a evolução da internet, dos anos 90 até hoje, essa faixa vai bater diferente. E bate ainda mais forte quando você não só escuta, mas vê o que a Naturezautomática construiu em “VEM!”. Porque não é só uma música — é uma viagem. É memória, é ironia, é crítica, é quase um arquivo emocional de tudo aquilo que a gente viveu sem perceber que estava sendo transformado.

A Naturezautomática surge em 2025, formada por André “Pepo” Persechini, Leo Bryan, Raul Lanari e Tiago Sales, músicos que já passaram por diferentes projetos da cena independente de Belo Horizonte como 4Instrumental, Cães do Cerrado, Jota Quércia e RU NA. E aqui, nesse novo projeto, eles fazem algo diferente: não tentam repetir fórmulas, mas criar uma linguagem própria que mistura folk, música brasileira, rock e uma camada conceitual muito forte sobre o mundo em que vivemos.

E “VEM!” deixa isso claro desde o início.

A faixa funciona quase como um jingle distorcido da antiga promessa da internet — aquele momento em que tudo parecia mais simples, quando o acesso era limitado, quando a conexão era discada, quando existia uma espera, um desejo.

E aí entra a letra:

“vem, vem se conectar, surfar no website, vamos construir um repositório de todo conhecido”.

É quase inocente à primeira vista, mas carrega uma profundidade enorme quando você entende o contexto. Porque essa frase não fala só de tecnologia — fala de um tempo que já não existe mais.

E é exatamente isso que a gente, da Divergent Beats, sentiu.

Existe algo muito especial nessa música. Primeiro pela sonoridade. É uma faixa que soa raiz, que carrega elementos da música brasileira de forma muito orgânica — o toque do baião, a presença da viola, texturas que remetem a algo mais terreno, mais humano. E isso contrasta diretamente com o tema, que é completamente digital, completamente acelerado, completamente contemporâneo. Esse choque cria uma experiência muito forte.

E aí entra o clipe.

O vídeo amplifica tudo. Ele te joga dentro dessa enxurrada de imagens, memes, cores, referências visuais que contam a história da internet — do sonho utópico de acesso universal até esse caos visual e informacional que define o presente. É rápido, é intenso, é quase sufocante em alguns momentos. E essa escolha não é estética apenas — é conceitual.

Porque “VEM!” não é só uma música experimental.

Ela é quase um manifesto.

A banda trabalha com a ideia de um mundo à beira de alguma coisa — um colapso, uma transformação, um limite. Esse antropoceno tecnológico, como eles colocam, vira cenário para letras que questionam o futuro, o desejo, a própria ideia de progresso. Existe uma tensão constante entre acreditar e duvidar, entre lembrar e esquecer.

E talvez seja por isso que essa faixa funcione tão bem.

Porque ela não fala só com quem viveu aquela internet antiga — ela também expõe algo que a nova geração talvez nunca tenha experimentado. Esse tempo mais lento, mais limitado, mais físico. E ao fazer isso, ela não soa nostálgica. Ela soa consciente.

A produção de Fernando Bones amarra tudo isso com uma identidade muito clara, reforçando essa mistura de elementos e essa proposta sonora que não tenta ser fácil, mas também não se afasta do ouvinte. Existe um groove ali, existe uma repetição que prende, existe uma energia que te mantém dentro da música.

E no final, fica essa sensação.

De que você não escutou só uma faixa.

Você atravessou um período inteiro da história.

E a Naturezautomática conseguiu transformar isso em som, imagem e linguagem de um jeito que surpreende, provoca e, acima de tudo, fica.



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