A gente esperou um pouco para falar sobre Animais Noturnos. E fizemos isso porque queríamos realmente viver esse álbum do começo ao fim, deixar as músicas crescerem dentro da cabeça, entender as nuances, as letras, os detalhes instrumentais e a identidade que a Motel Vertical construiu aqui.

Porque existe algo muito especial nesse disco. Nós, da Divergent Beats, sentimos imediatamente que a banda conseguiu criar um universo musical completamente próprio, um trabalho onde cada faixa parece fazer parte de uma mesma atmosfera emocional, mas sem nunca soar repetitiva.

E talvez o mais bonito seja justamente perceber o amadurecimento da banda desde o início da trajetória em 2022 até agora.

Formada em Guarulhos por Julius, Vitor, Caio e Igor, a Motel Vertical começou construindo o EP Quando Você Chegar, mas em Animais Noturnos existe uma sensação muito clara de liberdade artística. Parece um álbum feito por uma banda que finalmente encontrou segurança suficiente para deixar as músicas respirarem exatamente da maneira que elas precisavam existir. Você consegue sentir isso nas escolhas instrumentais, nas mudanças de clima, na forma como as emoções aparecem sem exagero, mas também sem medo de serem intensas.

São 11 músicas em cerca de 36 minutos que atravessam energia, introspecção, melancolia e explosão emocional de uma maneira muito bonita. A Motel Vertical consegue transitar entre momentos mais dançantes e outros profundamente reflexivos sem perder a identidade. Existe uma atmosfera densa no álbum inteiro, mas ao mesmo tempo muito humana.

É um disco noturno no melhor sentido possível. Um álbum para ouvir tarde da noite, caminhando sozinho, olhando pela janela do ônibus ou tentando organizar emoções que ainda não conseguem ganhar nome completo.

Musicalmente, você sente diferentes gerações do rock brasileiro atravessando a construção da banda. Mas o interessante é que nada aqui parece nostalgia vazia. As influências servem apenas como base para algo muito contemporâneo e muito deles. Existe indie rock, rock alternativo, momentos mais emocionais e até uma certa estética urbana que deixa tudo ainda mais próximo emocionalmente.

E o álbum inteiro funciona justamente porque parece sincero.

Não existe a sensação de uma banda tentando soar “cool” ou excessivamente calculada. Animais Noturnos parece feito de experiências reais, de sentimentos reais e de perguntas que ainda continuam sem resposta. Talvez por isso tantas músicas consigam tocar tão fundo.

A faixa que mais ficou dentro da gente foi “O Que Você Vai Ser”. E talvez seja uma das músicas mais bonitas do álbum justamente porque ela fala sobre amor de uma forma muito mais ampla do que apenas relacionamento. Existe ali uma sensação de amadurecimento emocional, de olhar para trás tentando entender quem você foi e quem ainda está tentando se tornar.

Quando a música começa dizendo:

“eu queria voltar no tempo no momento onde tudo começou / eu queria ser diferente, mas a gente é o que sobrou”

já existe um impacto muito forte. Porque é uma frase que parece simples, mas carrega uma carga emocional enorme. Ela fala sobre crescimento, arrependimento, mudança e aceitação ao mesmo tempo. E no final, quando aparece:

“meu amor, o que vai ser quando a dor enfim te alcançar?”

tudo ganha ainda mais profundidade.

Nós sentimos essa música quase como uma conversa entre versões diferentes da mesma pessoa.

E talvez isso defina muito bem Animais Noturnos. O álbum inteiro parece atravessado por essa tentativa de entender o que sobra depois das mudanças, das dores e do amadurecimento inevitável da vida. Existem músicas mais explosivas, outras mais introspectivas, mas todas carregam essa mesma sensação emocional por baixo.

A faixa-título “Animais Noturnos” ajuda ainda mais a construir essa identidade. Ela reforça esse universo urbano, denso e contemplativo que atravessa o álbum inteiro. Já “Nós Nunca Mudamos”, single que marcou a reta final de divulgação do disco, mostra muito bem a capacidade da banda de transformar vulnerabilidade em refrão forte sem perder delicadeza.

E isso é uma das coisas mais bonitas da Motel Vertical.

Eles entendem intensidade emocional sem transformar tudo em exagero.

A instrumentalidade também merece muito destaque. As guitarras conseguem alternar momentos mais etéreos e outros mais agressivos sem quebrar a atmosfera do disco. A bateria e o baixo sustentam muito bem essa sensação constante de movimento emocional, enquanto os vocais de Julius carregam uma interpretação extremamente honesta, quase como alguém contando pensamentos em voz alta.

Existe verdade aqui.

E isso faz muita diferença.

Nós, da Divergent Beats, sempre falamos sobre como a música independente brasileira continua entregando bandas capazes de criar identidades próprias sem depender de fórmulas prontas. E a Motel Vertical faz exatamente isso em Animais Noturnos. Eles criam um álbum emocional, moderno, intenso e extremamente humano, um trabalho que consegue dialogar tanto com a tradição do rock alternativo brasileiro quanto com sensibilidades muito contemporâneas.

No final, fica aquela sensação rara de ter encontrado um disco que continua crescendo depois da última faixa. Um álbum que você termina e imediatamente sente vontade de voltar para o começo para perceber ainda mais detalhes.

E talvez seja exatamente isso que faz Animais Noturnos funcionar tão bem.

Ele não quer apenas ser ouvido.

Ele quer permanecer dentro de você.



One response to “Motel Vertical entrega intensidade e identidade própria em Animais Noturnos”

  1. Coisa linda!!

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