A música independente brasileira continua sendo um dos lugares mais bonitos para descobrir artistas que realmente entendem a música como emoção, identidade e verdade. E um desses nomes é a Hibizco.
Nós, da Divergent Beats, estávamos esperando o lançamento de De Te Mostrar Intenso porque já dava para sentir, pelos singles e pela construção da banda nos últimos anos, que esse primeiro álbum seria algo especial. E foi exatamente isso que aconteceu. O trio de Porto Alegre entrega um disco explosivo do começo ao fim, um álbum que consegue ser intenso sem exagerar, emocional sem perder força e nostálgico sem soar preso ao passado.
Existe algo muito bonito na forma como De Te Mostrar Intenso atravessa diferentes tempos ao mesmo tempo. É um álbum extremamente presente, extremamente conectado às emoções e às ansiedades do agora, mas que também parece carregar ecos de várias épocas da música alternativa.
Em muitos momentos, nós sentimos aquela atmosfera indie do começo dos anos 2010, aquela mistura de vulnerabilidade e energia que marcou bandas britânicas da época, mas também existem traços muito fortes de rock alternativo dos anos 90, além de referências modernas do indie rock brasileiro. E tudo isso aparece sem parecer montagem de referências. A Hibizco transforma essas influências em algo próprio.
As referências da banda ajudam a entender essa construção. Fresno, Wolf Alice, Forfun, Paramore, Lagum, Pitty e Skank atravessaram o processo de composição e produção do álbum, mas o mais interessante é perceber como a banda absorve tudo isso sem perder a própria identidade. O disco tem uma assinatura muito clara. Você escuta e entende rapidamente quem é a Hibizco.
E muito dessa força vem justamente da dinâmica vocal entre Raquel Pianta e Yan Dezoito. Existe uma contraposição muito bonita entre as vozes, uma sensação constante de diálogo emocional dentro das músicas. Em alguns momentos, Raquel traz uma suavidade melancólica que deixa tudo mais íntimo; em outros, Yan aparece carregando mais urgência e energia. Essa troca cria uma profundidade emocional enorme nas faixas e faz o álbum parecer ainda mais vivo.
São dez músicas em pouco mais de 34 minutos, mas a sensação é de atravessar um universo muito maior. O disco fala sobre amor, desejo, saudade, desgaste emocional, amadurecimento, relações rasas, trabalho mal remunerado e aceitação, mas nada soa genérico. Existe uma sinceridade muito forte na maneira como essas emoções aparecem.
Talvez porque muitas dessas músicas tenham sido compostas ao longo de anos. A própria banda explicou que o álbum nasceu de um repertório inicial de quase 60 composições até chegar nessas dez faixas finais. E isso faz sentido quando você escuta o disco inteiro, porque existe uma unidade emocional muito clara, mesmo com músicas criadas em momentos diferentes da vida da banda.
A faixa “Mar” foi a que deixou algo muito forte dentro da gente. Existe um trecho que diz:
“dá pra ver até de longe a tua sombra indo em direção ao sol”
e a forma como essa frase aparece dentro da música cria uma sensação muito difícil de explicar racionalmente. É como se a Hibizco conseguisse transformar pequenas imagens em sentimentos enormes. E isso acontece diversas vezes ao longo do álbum. As letras parecem simples à primeira vista, mas carregam muito mais profundidade quando encontram a instrumentalidade e as interpretações vocais.
Musicalmente, De Te Mostrar Intenso também impressiona pela riqueza dos detalhes. As guitarras transitam entre momentos mais explosivos e outros mais delicados, enquanto as melodias pop convivem naturalmente com traços emo, indie e referências da música brasileira. Algumas faixas recebem ainda percussões gravadas por Julia Pianta, ampliando essa presença brasileira dentro do disco. Tudo foi produzido, gravado, mixado e masterizado por Edo Portugal no Superlua Studio, em Porto Alegre, e o resultado soa extremamente orgânico.
Existe também uma relação muito forte entre o álbum e Porto Alegre. O Bar Ocidente, por exemplo, espaço tradicional da vida noturna e cultural da cidade, aparece diretamente em “Azul Roxo”, faixa que funciona quase como uma ode às experiências afetivas atravessadas pela noite porto-alegrense. Esse senso de lugar deixa o álbum ainda mais humano, porque você sente que essas músicas nasceram de vivências reais, de encontros reais, de noites reais.

E talvez seja exatamente isso que faz a Hibizco funcionar tão bem. A banda não tenta criar uma imagem artificial de intensidade. Tudo aqui parece vivido de verdade. O próprio título do disco, retirado de um trecho da faixa “Vontade Surreal”, resume muito bem essa proposta. De Te Mostrar Intenso é exatamente isso: um álbum onde tudo foi sentido intensamente.
Hoje formada por Raquel Pianta, Yan Dezoito e Fran Goya, a Hibizco chega nesse primeiro álbum mostrando um amadurecimento artístico muito forte. Fran entrou durante o processo de pré-produção do disco e ajudou diretamente na construção dos instrumentais e na definição do repertório final, contribuindo para essa sensação de identidade coletiva tão presente no álbum.
No final, De Te Mostrar Intenso deixa uma sensação muito bonita. A sensação de que ainda existem bandas fazendo música com verdade, emoção e personalidade dentro da cena independente brasileira. E isso é uma coisa extremamente poderosa.



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