Tem EPs que falam sobre sentimentos. E tem EPs que parecem nascer diretamente deles. “Eu Não Era Daqui”, da Paraquedas, é exatamente isso: um trabalho que não tenta esconder a dor, a saudade, o deslocamento ou a dúvida de existir entre lugares diferentes. Ele pega tudo isso e transforma em música.

Formada em Boa Vista, Roraima, a banda nasceu desse encontro entre culturas impulsionado pela migração venezuelana no Norte do Brasil. E talvez seja exatamente por isso que esse EP soa tão verdadeiro. Porque ele não foi criado tentando parecer algo — ele simplesmente é vivido. Você escuta e sente que existe estrada, mudança, memória e tentativa de reconstrução dentro de cada faixa.

O mais bonito é que “Eu Não Era Daqui” nunca fica preso em um único sentimento. Tem momentos em que ele explode naquele emo rock intenso, carregado de urgência e coração aberto. Em outros, desacelera completamente e entrega algo doce, nostálgico, quase como uma lembrança que ainda dói um pouco. E no meio disso tudo, existe a pergunta que atravessa o EP inteiro: “onde eu pertenço agora?”

A faixa “Retroceder” talvez seja uma das que mais traduz isso. Quando eles cantam:

“retroceder para avançar com a esperança de achar o novo amanhã”

parece que estão falando sobre revisitar tudo aquilo que ficou pra trás pra conseguir continuar existindo. E isso bate forte. Porque crescer também é isso: perceber que, às vezes, a única forma de seguir em frente é olhar diretamente pras próprias feridas.

Mas o que torna a Paraquedas tão especial é que, mesmo falando de deslocamento, eles criam conexão. Mesmo falando sobre não pertencer, fazem você se sentir entendido.

Esse EP não é só sobre sair de Boa Vista e chegar em Florianópolis.
É sobre tentar encontrar um lugar dentro de si mesmo enquanto o mundo muda ao redor.

E a gente teve a oportunidade de conversar com a banda sobre esse caminho, sobre migração, pertencimento, memória e tudo aquilo que existe por trás de “Eu Não Era Daqui”.

Essa é a nossa conversa.

“Eu Não Era Daqui” carrega uma sensação muito forte de deslocamento, mas também de tentativa de pertencimento. Em que momento vocês perceberam que esse EP não seria só sobre música, mas sobre transformar a própria experiência de migração em algo coletivo?

Paraquedas: Acho que percebemos isso aos poucos, quase sem querer. No começo, as músicas eram só uma forma de organizar tudo o que a gente estava vivendo por dentro. A migração sempre foi uma experiência muito intensa pra nós, não só pela mudança de país, mas pela sensação constante de precisar reconstruir a própria identidade em outro lugar, outra língua, outra cultura.

Mas em algum momento entendemos que aquilo não era uma experiência exclusivamente nossa. Muita gente se sente deslocada por diferentes motivos. Nem sempre por migração literal, às vezes por não se sentir pertencente aos espaços, às pessoas ou até à própria fase da vida. Quando começamos a mostrar essas músicas, percebemos que as pessoas se identificavam justamente com essa sensação.

Então, o EP Eu Não Era Daqui deixou de ser só um relato pessoal e virou uma tentativa de transformar tudo isso em uma conexão. É um trabalho muito sobre saudade, identidade, adaptação e resistência, mas também sobre entender que, mesmo quando você sente que não pertence, ainda assim pode criar raízes, criar arte e criar novos sentidos pra própria existência.

Existe algo muito bonito no contraste entre o peso do emo rock e os momentos mais doces e nostálgicos do EP — principalmente na faixa em espanhol. Como vocês encontraram equilíbrio entre essas duas emoções: a dor de não pertencer e a beleza de continuar sentindo mesmo assim?

Paraquedas: Eu acho que, apesar de trabalharmos muito com emo rock e com essa estética que as pessoas costumam chamar de “rock triste”, o EP Eu Não Era Daqui precisava ter um momento mais suave, que apresentasse uma outra face da banda também.

E isso não era só sobre mudar o idioma por ser uma música em espanhol, mas também sobre mudar as texturas, a produção e a forma de sentir a música. A escolha de fazer essa faixa de forma acústica veio muito disso. Queríamos que ela soasse mais íntima, mais próxima, quase como uma memória.

Um dos nossos amigos ouviu a música e ele comentou “tô sentindo saudade de algo que eu nem cheguei a conhecer”

Além disso, eu acredito que um EP também é um espaço onde você pode apresentar diferentes propostas musicais de forma compacta. Então não queria fazer simplesmente um EP de rock. Queria fazer um trabalho de música alternativa, onde existisse espaço pra diferentes atmosferas e emoções.

E como essa música representa muito essa segunda fase da Paraquedas, essa outra camada da banda, sentimos que a melhor forma de apresentar isso era justamente através de uma faixa que mudasse tudo: o idioma, os instrumentos, a produção e até a forma de interpretar. Por isso ela acaba sendo uma música acústica e trazendo uma proposta completamente diferente do restante do EP.

Sair de Boa Vista e construir uma nova vida em Florianópolis muda não só a rotina, mas também a forma como a gente se enxerga. O que vocês sentem que perderam… e o que descobriram sobre vocês mesmos nesse caminho?

Paraquedas: Acho que a migração sempre faz você perder alguma coisa, mesmo quando ela também te oferece novas possibilidades. Quando saímos de Boa Vista e viemos construir uma vida em Florianópolis, sentimos muito essa ruptura. Você perde a sensação de estabilidade, perde referências, perde pessoas por perto, perde até versões antigas de si mesmo. Existe um luto silencioso em perceber que alguns lugares deixam de existir da mesma forma dentro da gente.

Mas ao mesmo tempo, acho que esse caminho também fez a gente descobrir muita coisa. Descobrimos que conseguimos recomeçar mesmo com medo, que somos mais resistentes do que imaginávamos e que a música continua sendo a nossa forma mais honesta de existir e se comunicar.

E acho que o EP Eu Não Era Daqui nasce justamente desse processo de transformação. Da dor de deixar coisas pra trás, mas também da coragem de continuar criando mesmo sem saber exatamente onde é “casa”.

Na faixa “Retroceder”, vocês cantam: “retroceder para avançar com a esperança de achar o novo amanhã”. Essa frase parece falar sobre revisitar feridas para conseguir seguir em frente. Vocês acreditam que é impossível crescer sem encarar aquilo que ficou pra trás?

Paraquedas: Eu acho que, de alguma forma, sim. Nem sempre é possível seguir em frente sem olhar para trás primeiro. Às vezes a gente tenta correr das próprias memórias, das feridas, das versões antigas de nós mesmos, mas elas continuam existindo dentro da gente de qualquer forma.

Porque no fim, às vezes “retroceder” emocionalmente é justamente o que permite encontrar um novo caminho pela frente. Não como alguém que esqueceu o passado, mas como alguém que conseguiu atravessá-lo.

O EP tem uma honestidade muito forte, quase como um diário emocional. Em algum momento, houve medo de expor sentimentos tão íntimos e experiências tão pessoais nas músicas?

Paraquedas: Sim, com certeza existiu medo no começo, principalmente nas primeiras composições. Os meus primeiros anos no Brasil foram muito marcados pelo processo de aprender português, entender uma nova cultura e tentar encontrar meu espaço dentro dela. E eu vivi grande parte da minha adolescência em Boa Vista, justamente num período em que a cidade estava atravessando uma crise migratória muito intensa.

Então, claro que existia insegurança. Porque uma coisa é aprender a falar português no dia a dia, outra completamente diferente é compor músicas, escrever sentimentos e cantar em um idioma que não era o meu idioma materno. Existia esse medo de como as pessoas poderiam reagir, se alguém faria algum comentário maldoso ou se isso poderia acabar virando um obstáculo emocional pra continuar criando.

E acho que quando você ainda não tem maturidade suficiente, esse tipo de coisa realmente pode te travar.

Mas desde 2024 comecei a abraçar muito mais a minha identidade, não só como artista, mas também como imigrante. Passei a entender que toda essa trajetória, recomeçar a banda, reconstruir um projeto musical em outro país e aprender uma nova língua  também fazia parte da arte que estava criando.

Hoje isso acabou se tornando uma narrativa muito natural da Paraquedas. Não está só nas músicas do EP, mas também nas entrevistas, nas apresentações ao vivo e na forma como nos conectamos com as pessoas. De certa forma, a migração deixou de ser apenas um contexto da nossa vida e passou a fazer parte da identidade do projeto.

Para quem vai ouvir “Eu Não Era Daqui” tentando encontrar seu lugar no mundo, talvez sentindo que também não pertence completamente a lugar nenhum — o que vocês gostariam que essa pessoa sentisse depois da última faixa?

Paraquedas: Mesmo sendo uma história muito ligada à migração, as músicas falam sobre sentimentos que acabam sendo universais: saudade, mudança, identidade, medo de recomeçar e a tentativa constante de encontrar um espaço onde seja possível existir de forma verdadeira. 

E talvez entender que pertencimento não é algo que você encontra de uma vez só. Às vezes ele vai sendo construído aos poucos, através das pessoas, da arte, das memórias e das conexões que surgem no caminho. Se alguém ouvir esse EP e sentir que suas emoções foram compreendidas por alguns minutos, então acho que o trabalho já cumpriu seu papel.



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