A gente já tinha falado de Aléxia na Divergent Beats (leia aqui), mas agora não tem mais como falar em fragmentos — Garra chegou como um corpo inteiro, explosivo, intenso, impossível de ignorar. Existe algo nela que acontece no exato momento em que a música começa e a voz entra: você fica presente. Não é paralisia, não é choque, é atenção total. Como se tudo ao redor perdesse um pouco da importância só para você conseguir acompanhar cada palavra, cada respiração, cada intenção.

E isso não acontece por acaso.

Garra, o primeiro álbum da carreira da artista, não é só um conjunto de 14 faixas, é uma afirmação de identidade muito clara dentro desse lugar que ela define como heavy pop — um território onde o peso do rock e do metal encontra a urgência do pop punk, a carga emocional do alternativo e refrões que grudam, mas sem nunca suavizar o impacto. O instrumental vem como uma porrada, como ela mesma diz, mas a voz segura, conduz, traduz. E é nesse contraste que tudo ganha força.

Existe muita verdade aqui. Muita honestidade.

A segunda faixa, “Ansiedade”, já deixa isso evidente. Não é uma abordagem superficial, nem genérica — é quase um diagnóstico emocional de uma geração que vive pressionada, sobrecarregada, tentando existir dentro de estruturas que não acolhem. E isso atravessa o disco inteiro. Cada faixa traz um detalhe reflexivo sobre a vida, sobre dor, sobre crescimento, sobre identidade.

Mas Garra não é só sobre peso. É sobre transformação.

A imagem central do álbum nasce justamente dessa ideia: a marca de uma garra, uma ferida que permanece, mas que também vira força. E quando Aléxia fala desse “monstro”, ela não aponta para algo externo apenas. Ela inclui a si mesma. É sobre tudo e todos que machucaram — inclusive as versões dela que precisaram existir para que ela chegasse até aqui. Isso muda tudo, porque tira o álbum de um lugar de culpa e leva para um lugar de consciência.

E isso se traduz nas músicas.

“Fevereiro” carrega o luto como algo que não se resolve, não se supera — se transforma. É uma das faixas mais difíceis emocionalmente, e isso se sente na forma como ela se expõe. Já “Letra e Música” entra num território ainda mais vulnerável, onde amor e fragilidade aparecem sem proteção. Existe uma coragem aqui que não é performática.

E aí vem “Cereja”.

Essa faixa funciona quase como um manifesto. Quando ela canta:

“Enquanto segue perdido, sei aonde eu vou chegar / Esse é meu lugar, quero ser livre / meu talento não notam, minha roupa não me define / uma mina no front vai te fazer chorar”

não é só afirmação — é posicionamento. É identidade sendo declarada sem pedir validação. E talvez seja exatamente aqui que a força de Aléxia se revela com mais clareza.

Porque o que ela faz não é esconder a vulnerabilidade.

Ela expõe.

E ao fazer isso, ela transforma vulnerabilidade em poder real. Não como discurso, mas como prática. Porque falar abertamente sobre medo, luto, ansiedade, pertencimento — e ainda assim continuar, criar, subir no palco, gravar, lançar — isso exige uma força que não é visível de imediato, mas é gigantesca.

A trajetória dela reforça isso.

Vinda do interior paulista, Aléxia construiu esse caminho com persistência, enfrentando a distância, a falta de acesso, a necessidade de acreditar mesmo quando tudo parecia mais difícil. São mais de 400 shows, festivais importantes, abertura de turnês, encontros com nomes relevantes da música brasileira e internacional. Não é um começo — é uma construção sólida que agora ganha uma forma definitiva.

E isso também aparece na produção.

Com produção musical de Gustavo e trabalho técnico de Alê Gaiotto na Gargolândia, Garra soa coeso, maduro, alinhado. Existe uma sintonia de banda aqui que aproxima o disco da experiência ao vivo, como se cada faixa carregasse o mesmo impacto de um palco. Não é polido demais, não é distante — é vivo.

E talvez seja isso que faz Garra funcionar tão bem.

Ele não tenta ser perfeito no sentido estético. Ele é perfeito no sentido humano. Porque ele aceita as contradições, as dores, as falhas, as cicatrizes — e transforma tudo isso em linguagem, em som, em presença.

Aléxia não está tentando provar nada.

Ela está mostrando quem ela é.

E isso, hoje, é uma das coisas mais fortes que um artista pode fazer.



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