Não tem nada mais humano do que perceber que o tempo passou e você não é mais a mesma pessoa, que aquilo que você carregava antes já não cabe mais dentro de você, que a vida aconteceu no meio do caminho e deixou marcas que não desaparecem, e é exatamente isso que o Dinamite Club entrega em Cortisol, um álbum que não tenta ser bonito, não tenta ser leve, não tenta te agradar, ele só existe do jeito que precisa existir

Nove anos não são só nove anos, são vidas inteiras acontecendo dentro de um espaço que ninguém vê, são perdas que não se explicam, são mudanças que você não escolhe, são dias em que levantar da cama já é um esforço, e quando essa banda volta, ela não volta para repetir quem era antes, ela volta como aquilo que sobrou depois de tudo

E talvez seja exatamente isso que faz esse disco ser tão forte, porque ele não vem de um lugar confortável, ele vem de um lugar onde já não dá mais para fingir que está tudo bem, ele vem do luto pela perda de Leon, vem da ansiedade, vem do burnout, vem da sensação de que a vida adulta não é nada daquilo que prometeram, vem do silêncio da pandemia, vem do isolamento, vem daquele cansaço que não passa

O Dinamite Club sempre foi uma banda que sabia transformar sentimentos em música, desde lá em 2010, quando começou a construir seu espaço entre o punk, o pop punk e o emo, com músicas que falavam de coisas simples mas profundas, aquelas coisas do dia a dia que ninguém diz mas todo mundo sente, e que fizeram eles dividirem palco com nomes como The Story So Far, Neck Deep e The Wonder Years, mas aqui não tem mais essa leveza, aqui tem peso, tem densidade, tem verdade

A formação em trio muda tudo, muda o som, muda o espaço, muda a forma de existir dentro da música, e você sente isso, sente que cada instrumento está ali segurando alguma coisa que quase escapa, como se tudo estivesse no limite, como se a qualquer momento fosse desmoronar, mas não desmorona, continua

E talvez seja isso que mais pega, essa ideia de continuar

Porque Cortisol não é sobre vencer, não é sobre superar, não é sobre final feliz, é sobre continuar mesmo sem saber direito por quê, é sobre seguir em frente quando não tem energia, quando não tem resposta, quando não tem certeza

Nós da Divergent Beats sentimos esse álbum como se fosse um espelho, e quando chegou em “Tempo Cura”, não teve como escapar, porque quando a música começa dizendo:

“que fim levou o sorriso, não existe mais”

não é só uma frase, é uma constatação, é aquele momento em que você percebe que alguma coisa mudou para sempre, e quando vem:

“eu te vejo sem você me ver”

é impossível não sentir, impossível não lembrar, impossível não se colocar ali

E aí você entende que o tempo não cura do jeito que a gente gostaria, ele não apaga, ele não resolve, ele só ensina você a carregar, a reorganizar, a continuar vivendo com aquilo que ficou

A produção de Ali Zaher Jr. segura tudo isso sem polir demais, sem tirar a sujeira, sem tirar a vida, e a participação de Renan Sales em “Hoje, Só Amanhã” entra como mais uma voz dentro desse caos, como se dissesse que ninguém passa por isso sozinho, mesmo quando parece

E até a capa fala, aquela cabeça feita de comprimidos não é estética, é sobrevivência, é o retrato de um tempo onde sentir demais virou algo que precisa ser controlado, medicado, silenciado.

Cortisol não é um disco que você escuta e esquece, é um disco que fica, que incomoda, que volta em momentos inesperados, que te faz parar e pensar no que você está fazendo com a sua vida, no que você perdeu, no que você ainda carrega

E talvez seja exatamente por isso que ele é tão necessário

Porque ninguém está bem o tempo todo

E tudo bem não estar

Instagram Dinamite Club



Deixe uma resposta

Ver Mais

Descubra mais sobre Divergent Beats

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading