É extremamente fresco e intenso quando uma banda consegue criar uma identidade visual que não é só estética, mas extensão direta do som, quando a capa não ilustra — ela respira junto com as guitarras, quando o conceito não explica — ele pulsa, e foi exatamente isso que sentimos ao mergulhar em Cavalaria, o novo EP da SoyBoyz.

Antes mesmo de ouvir qualquer nota, a gente já estava dentro de um universo, essa releitura quase barroca, quase sagrada e profana ao mesmo tempo, evocando o inferno de Dante sob um olhar próprio, distorcido, jovem, urgente, como se a banda tivesse pegado algo clássico e arrancado dele uma nova pele, uma nova tensão, uma nova linguagem, e essa escolha não é decorativa, ela prepara o corpo para o impacto, ela diz: o que vem aqui dentro não é neutro, não é seguro, não é previsível.

Formada em Porto Alegre em 2023 por Gabe, Savas, Oli e Zimmer, a SoyBoyz nasceu dessa vontade quase instintiva de sair do espaço fechado, do apartamento, e criar algo que escapasse das fórmulas da cena, e isso fica muito claro em Cavalaria, porque o que eles fazem não é só tocar indie rock:

É tensionar o indie rock até ele quase quebrar, até ele virar outra coisa, até ele começar a respirar de um jeito próprio, cruzando guitarras que se entrelaçam com uma precisão quase obsessiva com aquela dinâmica clássica de silêncio e explosão que vem do alternativo dos anos 80 e 90, mas filtrada por uma geração que cresceu ouvindo tudo ao mesmo tempo, de Pixies a Strokes, de At The Drive-In a Radiohead, e que não vê sentido em escolher só um caminho.

São quatro faixas, treze minutos e quarenta e um segundos que não desperdiçam um segundo sequer, e isso não é sobre perfeição limpa, é sobre intensidade controlada, sobre caos que sabe exatamente onde quer chegar, sobre melodias que parecem escapar, mas na verdade estão sendo guiadas o tempo todo.

Existe uma maturidade aqui que não tenta se provar, ela simplesmente acontece, principalmente quando você entende que essas músicas nasceram de dois anos de criação contínua, de um processo orgânico onde ideias simples se transformam em algo que nem eles mesmos previam, e isso se sente, porque nada aqui soa forçado, nada soa calculado para agradar, tudo soa necessário.

Cavalaria, a faixa de abertura, já chega como um impacto físico, uma descarga elétrica que lembra Strokes acelerados até o limite, com guitarras que se chocam e uma bateria que não pede licença, e ali você já entende que esse EP não vai te dar conforto, ele vai te manter em movimento, mas é em “Vampiros” que a SoyBoyz revela algo ainda mais profundo, quando eles abrem com:

“Não vou mais falar aquilo que já sabem também / Não posso brigar aqui, não tem mais ninguém”

e isso poderia ser uma frase simples, quase jogada, mas não é, porque existe uma solidão aqui que não é dramática, é seca, é direta, é quase cansada, e é justamente essa contenção que dá força, que mostra essa maturidade lírica que a banda comenta, essa forma de falar de emoções e relações sem cair no óbvio, sem entregar tudo de forma literal, deixando espaço para o desconforto, para a interpretação, para o silêncio entre as palavras.

A produção, feita em conjunto com João Lentino, com guitarras e vocais gravados no estúdio dele e baterias registradas no Pimenta Caseira com a engenharia precisa de Diogo Brochmann, reforça esse peso físico do som, essa energia que parece querer sair das caixas, que parece feita para palco, para corpo, para suor.

Isso conecta diretamente com o momento de vida da banda, jovens adultos atravessando tudo aquilo que essa fase traz, sem romantizar demais, sem transformar em manifesto, mas também sem esconder, transformando tudo em som, em textura, em tensão.

E talvez o mais forte de Cavalaria seja exatamente isso: a sensação de que a SoyBoyz sabe quem é sem precisar afirmar o tempo todo, existe identidade aqui, existe uma linguagem que está se formando de maneira muito clara, existe um respeito pelo que eles já criaram em Quarta Passada, mas também uma vontade evidente de ir além, de estranhar mais, de pesar mais, de dizer mais sem necessariamente explicar mais.

Isso é raro, porque muitas bandas passam anos tentando encontrar esse ponto, e aqui ele já aparece, não como algo finalizado, mas como algo vivo, em movimento, em expansão.

Ouvir Cavalaria é entrar nesse espaço onde raiva e admiração coexistem, onde amor e desconforto se misturam, onde nada é totalmente resolvido, e talvez seja por isso que ele fica, porque ele não fecha, ele abre, ele provoca, ele continua ecoando depois que acaba, como se aquelas treze minutos e quarenta e um segundos fossem só o começo de alguma coisa que ainda vai crescer muito mais.



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