Não tem coisa mais intensa, mais próxima de uma obra-prima, do que quando um artista consegue, através da força do som e de poucas palavras, criar uma conexão tão profunda que uma homenagem deixa de ser apenas uma homenagem e se transforma em experiência.
Foi exatamente isso que sentimos ao escutar “SAKAMOTO BOSSA NOISE サカモトボッサノイズ”, novo single da FERALKAT. Uma música que não apenas celebra a influência do lendário Ryuichi Sakamoto, mas que cria um universo inteiro onde Brasil e Japão, sonho e realidade, natureza e tecnologia, passado e futuro caminham juntos.
Quem acompanha a Divergent Beats sabe que temos uma enorme admiração por artistas que conseguem construir mundos próprios. E Natasha Durski, a mente criativa por trás da FERALKAT, é uma dessas artistas raras. Cantora, compositora, produtora, multi-instrumentista, fotógrafa e cineasta, ela transforma tudo aquilo que toca em uma experiência sensorial. Em seu trabalho, imagem vira som, som vira imagem, e o resultado é algo que vai muito além da simples definição de música alternativa.
“SAKAMOTO BOSSA NOISE サカモトボッサノイズ”, segundo single do aguardado álbum KARUKASY, previsto para o segundo semestre de 2026, talvez seja uma das manifestações mais completas desse universo artístico que ela vem construindo. Desde os primeiros segundos, a faixa nos coloca dentro de uma viagem. Não uma viagem geográfica, mas emocional e espiritual. É como atravessar um portal onde as praias brasileiras encontram as ruas iluminadas de Tóquio, onde os Encantados das cosmologias indígenas conversam com os Kodamas das florestas japonesas e onde os sonhos de Akira Kurosawa ganham trilha sonora própria.
O mais impressionante é que tudo isso acontece de forma extremamente natural. Natasha assina praticamente toda a construção da música: composição, produção, gravação de vozes, sintetizadores, guitarra, theremin e beats, além de participar da mixagem. Essa autonomia artística faz com que cada detalhe soe genuíno. Nada parece colocado ali apenas para impressionar. Tudo existe porque faz parte da narrativa.
A homenagem a Ryuichi Sakamoto atravessa toda a faixa. E não estamos falando apenas de uma referência musical. Estamos falando de uma reverência emocional. Sakamoto aparece como uma presença que guia a composição, como um espírito criativo que conduz essa ponte entre diferentes culturas. O resultado é uma música que une elementos da bossa nova, do samba, do synthpop, do city pop japonês e do noise rock em uma combinação que, no papel, poderia parecer improvável, mas que nas mãos da FERALKAT se torna absolutamente fascinante.
Existe algo muito cinematográfico em toda essa construção. Talvez por isso um dos momentos que mais nos marcou seja quando a voz etérea da artista surge quase como um sussurro entre as camadas sonoras para dizer: “Num pôr do sol reverso, encontro KARUKASY, devaneio perdido em sonhos de Kurosawa, embalados pela dor da tarde.”
É uma imagem belíssima. E ao mesmo tempo misteriosa. Você não escuta apenas a frase. Você vê a frase. Você sente a frase. Ela se transforma em paisagem. E talvez essa seja uma das maiores qualidades da FERALKAT: sua capacidade de criar imagens dentro da cabeça do ouvinte.
A faixa também revela uma faceta diferente daquela apresentada anteriormente em “Tsunami”. Enquanto o primeiro single carregava uma energia mais orgânica e ligada ao rock, aqui a artista mergulha ainda mais fundo na experimentação. Os sintetizadores flutuam como névoa. O theremin parece uma entidade viva atravessando a música. A guitarra surge como vento, ruído e textura. Os beats misturam referências ao samba com pulsos eletrônicos contemporâneos. Tudo parece em movimento constante, como se estivéssemos navegando por um sonho que muda de forma a cada instante.
Mas talvez o aspecto mais bonito de tudo seja a forma como FERALKAT transforma referências culturais em algo profundamente pessoal. O encontro entre Brasil e Japão não soa como um exercício intelectual ou uma simples fusão estética. Parece algo vivido. Algo sentido. Algo que faz parte da própria identidade artística da compositora.

Essa sensibilidade já havia chamado atenção desde o excelente álbum Corpo no Mundo // Corpo que Habito, lançado em 2023, trabalho que levou a artista a realizar mais de 30 apresentações em cinco estados brasileiros e dividir palco com nomes como Papisa, Jair Naves e Cidade Dormitório. Desde então, sua trajetória só vem crescendo, incluindo o reconhecimento da Revista NOIZE como uma das revelações de 2025 e sua parceria oficial com a plataforma QOBUZ.
Com “SAKAMOTO BOSSA NOISE サカモトボッサノイズ”, FERALKAT confirma mais uma vez que ocupa um espaço muito singular dentro da música brasileira contemporânea. Não existe ninguém fazendo exatamente aquilo que ela faz. E talvez seja justamente por isso que sua arte seja tão necessária.
Ao final da música, ficamos com a sensação de ter visitado um lugar que não existe em nenhum mapa. Um território construído por memórias, sonhos, espiritualidade, cinema, natureza e som. Um lugar onde Ryuichi Sakamoto encontra Tom Jobim, onde os Kodamas encontram os Encantados, e onde FERALKAT continua provando que sua imaginação não conhece fronteiras.



Deixe uma resposta