É incrível como acontece muitas vezes de bandas ou artistas entrarem em contato com a gente para apresentar seus trabalhos… quando, na verdade, a gente já tinha encontrado eles antes. Sozinhos. No meio do caos dos algoritmos, num Release Radar qualquer, e amado desde o primeiro segundo.
Foi exatamente isso que aconteceu com Midnight Soup Opera. A gente ouviu “Shrek 2” e pensou na hora: isso aqui é especial. Isso aqui não é só mais um projeto.
Midnight Soup Opera é o projeto solo de Joshua Cotrim, artista baiano que iniciou esse universo em 2023 e hoje se move entre Aracaju e a cena alternativa nordestina com uma identidade que já nasce forte. Influenciado por shoegaze, emo noventista e rock alternativo, ele constrói uma sonoridade que não tenta ser perfeita — tenta ser sentida. E é justamente por isso que funciona tão bem. Letras confessionais, atmosferas densas, temas como identidade, solidão, melancolia e resistência aparecem não como conceito, mas como vivência.
E isso se percebe desde os primeiros lançamentos. “Heaven is a Place”, o single de estreia em 2024, já mostrava esse caminho, seguido pelo duplo “Goodbye Mom I Love You / 6th Grade”, que aprofundou ainda mais essa estética emocional. Depois vieram “William” e “Pretty”, preparando o terreno para aquilo que agora se concretiza de forma completa: o EP Midnight Soup Opera.
E o resultado é lindo.
São seis faixas, pouco mais de vinte minutos, mas que parecem durar muito mais — não em tempo, mas em sensação. Porque você entra. Você mergulha. E quando percebe, já está completamente dentro desse mundo. Um mundo onde shoegaze e dream pop não são só referências sonoras, mas estados emocionais.
A produção é delicada e densa ao mesmo tempo. As guitarras criam camadas que parecem envolver tudo, como se fossem um abraço ou um peso — depende de como você escuta. Existe uma beleza ali que não é óbvia, não é polida demais, mas justamente por isso soa real. E as letras… as letras são o centro de tudo.
Em “Pretty”, quando ele canta
“I know you didn’t mean it, but it’s tearing me apart, I see the look in your eyes as he passes by, do you dream of him holding you when it’s all so cold at night?”
é impossível não sentir. Existe uma vulnerabilidade ali que não tenta se esconder. É direto, é íntimo, é quase como ler um pensamento que não deveria ser compartilhado — e mesmo assim está ali, aberto.
E então vem “William”.
E pesa de outro jeito.
“Oh William, what have you done now? They won’t get off my back, they want my teeth and flesh. Oh William, what have you done now? I feel like I can’t trust anyone around.”
Aqui o tom muda, fica mais tenso, mais desconfiado, mais escuro. Existe uma sensação de perseguição, de pressão, de não pertencimento. E tudo isso dentro de uma atmosfera sonora que continua linda, mas agora carrega um peso diferente. E é exatamente isso que faz esse EP funcionar tão bem.

Ele não é linear. Ele respira. Ele muda. Ele sente.
E o mais forte de tudo é entender de onde isso vem. Porque a gente está falando de um artista baiano, que constrói esse universo a partir de Aracaju, dentro de uma cena nordestina que muitas vezes ainda é subestimada, mas que está entregando alguns dos projetos mais interessantes do rock alternativo brasileiro hoje. E Midnight Soup Opera entra com força nesse movimento.
Não como promessa distante.
Mas como realidade.
Com mais de 60 mil streams acumulados, presença em playlists internacionais, execuções em rádios como a DKFM nos Estados Unidos e shows que já atravessam estados, Joshua está construindo algo consistente. Mas mais do que números, o que fica é a sensação.
Porque esse EP não é só bonito.É necessário.
É aquele tipo de trabalho que te faz parar, escutar com atenção e sentir coisas que talvez você estivesse evitando. E isso, no final, é o que mais importa.
A gente da Divergent Beats ficou completamente dentro disso.
E não quer sair.



Deixe uma resposta