Eram já alguns dias que estávamos esperando o lançamento desse EP. Não só pela curiosidade sonora, mas porque, antes mesmo de apertar o play, Mofar já tinha nos fisgado visualmente. A imagem da capa — uma prancha de skate jogada no meio do mato, escrita à mão, crua, sem filtro — já dizia muita coisa. PANTA REI. MOFAR. Letras brancas tortas sobre o preto gasto da madeira, cercadas por um verde vivo, quase selvagem.
Uma imagem que carrega movimento mesmo parada. Rua, risco, impulso, queda. Nada ali parece limpo ou calculado. E isso é exatamente o que esse EP é.
Antes mesmo do lançamento, fomos atrás de tudo que a Panta Rei já tinha feito: o single homônimo Panta Rei, Lá Se Foi o Sol, o disco Lixo-Fi Vol 1. Três segundos bastaram pra entender que estávamos diante de uma banda que não faz concessões. Quando o EP finalmente saiu hoje, e a gente apertou o play no Bandcamp — onde, além de ouvir, dá pra apoiar comprando o álbum — foi amor à primeira vista. Amor bruto. Amor barulhento. Amor daqueles que batem no peito.
A Panta Rei é um trio de Santos, SP, formado por Iury Cascaes (vocais e baixo), Arthur “Tuco” Campos da Cruz (guitarra) e Bruno Novaes (bateria e backing vocals). A banda bebe de uma psicodelia pesada, com referências que passam por Black Sabbath e Casa das Máquinas, mas sem soar como homenagem ou nostalgia. O som deles é vivo, urgente, físico. Reconhecidos na cena local por apresentações intensas e memoráveis, Mofar surge como um passo firme na preparação para o primeiro álbum da banda, previsto para março de 2026.

O EP traz duas faixas, mas nenhuma delas passa despercebida. Mofar é punk rock energético sobre sofrimento mental no capitalismo, gravado de forma totalmente analógica nos estúdios de Lisciel Franco, no interior do Rio de Janeiro. Equipamentos lendários: microfone de voz da década de 30, microfones de bateria dos anos 70. Só relíquia. E isso não é detalhe técnico — isso se escuta. O som é áspero, cru, direto, impactante. Nada é polido demais. Nada é domesticado.
Tem um verso em Mofar que fica girando na cabeça como um mantra torto:
“o soco do coice, a vida tão nua, as vestes de minha própria pessoa”.
É desconfortável. É honesto. É exatamente o tipo de frase que te faz parar por um segundo e respirar diferente.
Já Poesia vem como um contraste que não suaviza, mas aprofunda. Uma canção de amor visceral, com groove viciante e vocais poderosos. Logo no começo, a letra já entrega tudo:
“é poesia, me dê teu peito / é poesia, me dê teu seio / pra eu chupar essa vida gostosa que em ti pulsa”.
É sensual, é intenso, é quase corporal. Amor aqui não é idealizado — é carne, é força, é energia explosiva. Como o próprio Iury diz, é sobre reconhecer que, apesar de toda exploração e sofrimento, existe algo dentro da gente que ainda quer renovar o mundo.
Mofar é curto, mas deixa marcas. É um EP que soa como um fechamento de ciclo e, ao mesmo tempo, como aviso: a Panta Rei está chegando com tudo. E a capa resume tudo isso sem dizer uma palavra. A prancha no mato não é só estética — é símbolo. De deslocamento. De tentativa. De continuar andando mesmo quando tudo parece gasto.
Esse EP não pede permissão, não se explica, não tenta ser confortável. Ele existe. E isso já é muito.

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