A gente já tinha falado de Honorius Causa aqui no Divergent Beats quando saiu “Miúdos do Subúrbio Esquecido” (leia aqui) , e desde aquele primeiro impacto já dava pra sentir que não era só mais um projeto dentro do underground. Era algo mais direto, mais vivido, mais necessário. E agora, com “Solidão”, isso não só se confirma — se aprofunda de um jeito que bate diferente.
Então sim, vamos pegar esse avião imaginário e ir até Portugal. Porque tem algo acontecendo ali que precisa ser escutado com atenção.
Honorius Causa é o projeto solo de Pedro Honório, uma figura que não começou ontem. São mais de 35 anos dentro da cena hardcore e metal portuguesa, cofundador dos 605 Forte, ex-Bruteforce, alguém que viu, viveu e construiu parte dessa história. Mas o mais interessante não é só o passado — é o agora. É o fato de que, depois de tudo isso, ele volta com algo completamente pessoal, completamente cru, completamente sem filtro.
E “Solidão” é exatamente isso.
Se “Miúdos do Subúrbio Esquecido” era um soco direto, imediato, quase coletivo, “Solidão” é o que fica depois. É a ferida aberta. É mais densa, mais íntima, mais difícil de digerir — e exatamente por isso, mais forte.
A sonoridade vem ainda mais carregada, com guitarras pesadas, baixo pulsando com presença e uma energia que mistura hardcore urbano com influências claras de thrash e nu-metal dos anos 90 e 2000. Mas o que realmente prende não é só o peso do som. São as palavras.
Porque existe aqui uma camada que vai além da música. Uma camada política, social, real. E isso bate ainda mais quando a gente olha de fora, como brasileiros, muitas vezes com essa ideia quase romantizada da Europa. Como se tudo funcionasse, como se tudo fosse resolvido. E não é. E “Solidão” escancara isso.
Escancara o peso de crescer nas margens, o peso da incompreensão, o peso de existir em um sistema que não foi feito pra te acolher.
Quando ele canta:
“e hoje entendo toda a violência, a influência e o tempo que passou, mas no fundo ainda aquele miúdo que ninguém compreendeu, que ninguém escutou”
é impossível não sentir. Porque ali não é só memória, é continuidade. É o passado que nunca foi resolvido, só carregado.
E quando entra:
“perguntava porquê quando estava… desmontava o mundo em peças de razão”
você entra ainda mais fundo. É confusão, é tentativa de entender, é um cérebro que funciona de outro jeito tentando sobreviver em um mundo que exige normalidade.
E é aqui que a música se torna ainda mais necessária.
Porque “Solidão” fala de algo que quase nunca é dito com essa clareza dentro desse tipo de som: o custo silencioso de ser neurodivergente em uma sociedade que não sabe o que fazer contigo. Não é metáfora leve, não é conceito distante. É direto. É desconfortável. É real.
E isso faz com que a agressividade da música ganhe outro significado.
Não é só raiva. É resistência. É sobrevivência.
É alguém transformando anos de silêncio, de incompreensão, de deslocamento em algo que finalmente ocupa espaço, que finalmente faz barulho.
E isso é muito Divergent Beats.
Porque é exatamente sobre isso: dar voz ao que normalmente fica escondido, transformar dor em linguagem, transformar experiência em algo que pode ser compartilhado.
E “Solidão” faz isso sem pedir licença. Sem suavizar. Sem explicar demais. Só entregando.
E se isso é só mais um passo dentro de um álbum que está sendo construído faixa por faixa… Então o que vem pela frente não é só um disco.É um documento. E a gente vai estar aqui. Escutando.
Sentindo



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