Existem músicas que contam histórias. E existem músicas que param o tempo.
Quando ouvimos “Golden Eye”, novo single da City Mall, sentimos exatamente isso: um instante suspenso. Como se estivéssemos naquele segundo antes de algo acontecer — antes de uma palavra ser dita, antes de um gesto mudar tudo, antes do coração decidir entre avançar ou recuar.
A banda paulistana formada por Pedro Spadoni, Matheus Del Claro e Mariana Stein construiu sua identidade explorando esse território invisível entre emoção e atmosfera. Em Golden Eye, lançado pela Cavaca Records, eles transformam expectativa, silêncio e tensão em paisagem sonora. Um synthpop denso, elegante e inquieto, que mistura eletrônica, instrumentos orgânicos e uma escrita lírica que se aproxima mais da poesia do que da narrativa tradicional.
O título evoca o imaginário cinematográfico de James Bond, mas aqui não existe herói. Existe apenas o olhar atento que antecede o movimento — o momento em que tudo ainda é possibilidade. Inspirada também pela poesia de Emily Dickinson, a letra atravessa temas como conflito, percepção e fragilidade humana, lembrando que muitas vezes as grandes batalhas acontecem dentro de nós.
Entre synths hipnóticos, bateria orgânica e atmosferas que lembram artistas como Boards of Canada e DIIV, a City Mall cria uma música que não entrega respostas fáceis. Pelo contrário: convida o ouvinte a desacelerar, ouvir com atenção e habitar o espaço entre aproximação e distância.
Com Golden Eye, a banda inaugura seus lançamentos de 2026, aprofundando ainda mais uma pesquisa estética que transforma música pop em experiência sensorial.
Conversamos com a City Mall sobre o caminho da banda, o processo criativo por trás de Golden Eye e a decisão de cantar em inglês enquanto constroem um universo sonoro que parece existir entre cidades, filmes e sonhos.
A City Mall nasceu quase como uma brincadeira — uma “banda de músicas para salas de espera”. Mas por trás dessa ironia existe uma pesquisa estética muito profunda. Em que momento vocês perceberam que essa ideia aparentemente leve escondia um universo artístico muito sério?
City Mall: Por mais que essa brincadeira estivesse desde o começo, a banda nasceu de uma ideia de estética sonora e visual, de se inspirar no synth pop, trazendo elementos do fusion, da bossa, e com letras e visuais que tragam narrativa, então as ideias musicais já eram sérias desde o começo! A questão é que a gente compartilha a ideia de que devemos levar nossa música a sério, mas não precisamos nos levar a sério, sabe? Nunca o contrário, inclusive. E aí, entendendo que o som que a gente produz cai muito nesses momentos de relaxar, de estudar, de deixar rolando, a gente já brincou de se assumir como banda de elevador desde o começo – mas nunca considerando que esse tipo de música é apenas ambiente, afinal, a maior referência em música de elevador/lobby é a bossa, né, que é o jazz brasileiro.
No fim, essa brincadeira tem essa função mesmo que você traz na pergunta, de trazer leveza pro projeto. A gente leva a sério, mas não é pra ser um peso ou carregar grandes pretensões. Só queremos fazer o que gostaríamos de ouvir e construir em volta de um universo que também representa a nossa personalidade de alguma maneira.
Em Golden Eye vocês parecem interessados não no conflito em si, mas no instante antes dele — aquele momento suspenso onde tudo ainda é possibilidade. Por que esse espaço entre o pensamento e a ação se tornou tão fascinante para vocês como compositores?
City Mall: Depois de passar por alguns relacionamentos, parece que a gente já vive toda a tensão de todas as possibilidades antes de qualquer coisa acontecer, né? Principalmente as possibilidades ruins, de não conseguir, de rolar algo mas de haver sofrimento depois, então esse momento acaba carregando muita tensão! A gente pensa em tudo e às vezes já toma medidas drásticas antes mesmo que qualquer coisa tenha acontecido de fato. Pensando de um jeito metafísico, é como se nesse intervalo a gente vivesse uma imensidão de possibilidades, e vamos da euforia à exaustão por ter vivido isso. Como são momentos em que tudo é possibilidade, é como se vivêssemos todas elas. Tem uma carga emocional aí, né? rs.

O título traz a referência ao universo de James Bond, mas a música desloca essa ideia para algo muito mais íntimo e subjetivo. O que atrai vocês nessas imagens cinematográficas como metáforas para falar de emoções humanas?
City Mall: Como a gente produz tudo em casa, já vamos criando a atmosfera da música desde o início, e dela vem a sensação sobre o tema que vamos abordar. Essa música estava mais sombria desde o início, e veio a imagem de uma invasão de um forte na neve, acho que era de inception a cena? E aí caímos nessa ideia do paralelo de que iniciar uma relação é como invadir um forte de segurança máxima, e por isso que fomos desenhando essa invasão na letra, e que a capa traz as montanhas e o clima frio. Aí, respondendo a pergunta, acredito que isso virou um pouco um processo nosso! A gente entende que tem uma composição quando fica clara a fotografia dela, e a partir daí é como se a música fosse uma trilha dessa cena. Entendemos que a fotografia, a música e a emoção são tudo parte da mesma coisa, são um retrato ou representação da vida e da nossa humanidade.
A letra diz: “Battles never have sinners at all / Wars have never crowned victors / We’re just little kids playing tag.” Essa visão quase infantil da guerra parece desmontar a ideia de heroísmo. O que vocês estavam tentando revelar sobre conflito, poder ou ego quando escreveram esses versos?
Pedro: Esse verso tem uma questão mesmo, de adicionar uma camada de significado, pois ele veio depois. O engraçado é que a gente tava no meio da produção e eu tinha uma viagem marcada, e eu queria levar os equipamentos pra não parar, mas o Matheus falou – vai viver, pra ter o que escrever! E eu vivi. E voltei com algumas letras, de fato. Eu estava lendo Emily Dickinson durante a viagem e ela escrevia muito sobre a guerra, questionando se haveria ali algum vencedor. E eu vi um paralelo ali, pensando nas motivações para ambos, e como a motivação se esvazia em algum momento, e no fim, atrás das fortalezas, ainda somos frágeis, ingênuos, guiados pelos mesmos sentimentos de sempre. Acho que eu queria dizer que a gente pode até construir fortaleza em volta de nós, mas no fundo ainda somos apenas crianças, brincando de pega-pega, e querendo nos sentir amados.
A sonoridade da City Mall sempre parece viver entre dois mundos — o orgânico e o sintético, o calor humano e a frieza eletrônica. Essa tensão sonora é uma escolha estética ou uma forma de traduzir a maneira como vocês percebem o mundo hoje?
City Mall: Acho que o som é assim porque a gente é assim! Não vemos muito sentido em impor algum limite. Achamos meio besteira esse purismo de que tem que fazer as coisas de um jeito ou de outro, e a gente tem referências dos dois lados também. No final, tudo é som, tudo conta história, e se chegou em um lugar legal, não importa muito como foi feito, né? Óbvio, desde que não esbarre em uma questão ética.

Vocês escolheram escrever e cantar em inglês. Para uma banda brasileira, essa decisão muitas vezes levanta discussões sobre identidade e alcance. Para vocês, cantar em inglês é uma escolha estética, narrativa ou uma forma de posicionar a City Mall dentro de um território musical específico?
City Mall: Cantar em inglês tem dois pontos principais pra gente. O primeiro é a questão estética mesmo. Cada língua soa de uma maneira, e dentro da ideia de som que a gente queria fazer, a sonoridade do inglês é o que se encaixaria melhor de fato. A gente já fez outros projetos em português, e sabemos o impacto que a língua tem na sonoridade. Outro ponto é que fizemos esse projeto com muito foco na produção musical mesmo, e não em qualquer questão de relevância local. A gente só queria produzir e botar no mundo pro pessoal ouvir, e como é um gênero global, entendemos que os ouvintes estão espalhados pelo mundo.
No fim, além de ser o som que a gente queria – o que já não abriríamos mão – também fazia sentido pensar que os ouvintes estariam espalhados pelo mundo, e que a língua poderia ajudar, o que de fato aconteceu! Hoje o Brasil não é nem top 3 países que nos ouve, deve ser o sétimo.
Para quem está escutando a City Mall pela primeira vez através da Divergent Beats — entrando nesse universo feito de silêncio, tensão e paisagens sonoras densas — o que vocês gostariam que a pessoa sentisse depois do último segundo de Golden Eye?
City Mall: Primeiro, que precisa dar o play de novo (risos). Mas acho que é uma música que pode te levar pra um estado contemplativo, e caso a pessoa se identifique, pode trazer reflexões que tirem alguns comportamentos do automático. No fim, se nossas músicas estiverem acompanhando seu dia, já sentimos uma honra imensa! E se alguma música causar alguma reflexão, ou se ao menos criar o clima para isso, aí já nem sabemos o que dizer. Na City Mall a gente faz o que gosta e nos reflete, então quando toca outra pessoa, é um extra que nos deixa muito alegres.
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