A cena sergipana segue fazendo aquilo que sempre fez de melhor: criando arte a partir das raízes, do território, do corpo e do tempo. Não é sobre repetir fórmulas nem sobre soar como qualquer outro lugar do Brasil. É sobre identidade. E Casulo, com o EP Rizoma, prova isso com uma maturidade que impressiona — ainda mais quando lembramos que estamos falando de artistas jovens, em plena construção, mas já profundamente conscientes do que querem dizer com som.

Formada em 2023, Casulo nasce como banda instrumental, mas vai muito além da ausência de palavras. O trio — Samira Andery no baixo, Vico Fontes nos teclados e Thiago Samadhi na guitarra — constrói uma linguagem própria, onde tudo acontece de forma orgânica, quase intuitiva.

As músicas não parecem “pensadas” no sentido técnico; elas parecem brotar. Como o próprio nome do EP sugere, Rizoma cresce em múltiplas direções, sem hierarquia, sem começo ou fim claros, criando conexões subterrâneas entre ritmo, textura, improviso e sensação.

São quatro faixas, 13 minutos e 38 segundos, mas o tempo aqui funciona de outro jeito. Você dá o play e, quando percebe, já está completamente dentro do mundo da Casulo. Não é um EP para ouvir distraído. É um EP que pede corpo, fone de ouvido, atenção. Um trabalho que te envolve devagar, camada por camada, como se cada instrumento estivesse conversando com o outro em um idioma próprio.

A produção é linda, cuidadosa, viva. Dá para sentir a sinergia entre os músicos; dá para sentir o espaço do estúdio, o ar entre as notas. Nada soa artificial. Nada soa apressado. Tudo respira. E talvez seja isso que mais emociona: Rizoma não tenta impressionar, ele convida. Convida a entrar, a ficar, a sentir.

Entre as quatro faixas, “Raízes” foi a que mais nos atravessou. Não só pelo nome, mas pela forma como ela traduz o território sergipano em som. Há um momento em que surge a frase:

“Ancestral, eu vim de lá, do sopro do mangue, do vento do mar”.

Quem conhece Sergipe entende imediatamente. O mangue, o vento constante vindo do mar, essa presença natural que molda o corpo, o ritmo, o jeito de viver. Casulo transforma isso em música de forma delicada e poderosa ao mesmo tempo, sem caricatura, sem romantização vazia. É memória viva.

Rizoma é um EP que entra no corpo. Não só nos ouvidos. Ele vibra no peito, nas pernas, na respiração. É instrumental, mas fala muito. Fala de origem, de conexão, de processo coletivo. Fala de escuta — entre eles e entre nós. E isso, hoje, é raro.

Casulo entrega aqui um trabalho bonito, sensível e extremamente bem resolvido para um primeiro grande registro. Um EP que honra a cena sergipana, mas que também dialoga com qualquer pessoa disposta a sentir música para além da pressa. Se esse é o começo, o que vem depois promete crescer ainda mais fundo.



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