Todas as bandas, cantores e cantoras que a gente encontra nas nossas pesquisas e depois leva para o Divergent Beats têm algo em comum: uma estética própria, um universo particular, uma tentativa honesta de dizer quem são antes mesmo de tocar a primeira nota. Mas, de vez em quando, aparece uma banda que faz a gente parar e se perguntar: ok, a estética é linda — mas e a música?
E foi exatamente isso que aconteceu com a Trezalt.
Diretamente de Santos — cidade que insiste em provar, lançamento após lançamento, que o underground brasileiro está vivo, inquieto e em constante mutação — a Trezalt chega com um EP bomba que não se explica demais e não tenta ser maior do que é. Quarto é explosivo justamente porque é íntimo. Porque acontece em um espaço pequeno. Porque tudo o que importa ali cabe entre quatro paredes.
A Trezalt já vinha construindo seu caminho na cena independente com lançamentos anteriores, mas é em Quarto, lançado em novembro de 2025, que a banda parece encontrar um eixo muito claro entre estética, conceito e som. São apenas três faixas — Jokenpô, Fantasmas e 5AM — e ainda assim, nada soa incompleto. Pelo contrário: tudo parece cuidadosamente conectado, como se cada música fosse uma luz acesa em um mesmo cômodo durante a madrugada.
E faz sentido. O próprio título do EP carrega esse peso simbólico. O quarto como espaço de isolamento, de refúgio, de colapso silencioso, de pensamento excessivo. O lugar onde a cidade para, mas a cabeça continua girando. O lugar onde a gente enfrenta versões de si que não aparecem durante o dia.
Musicalmente, Quarto é forte, intenso e detalhista. O rock alternativo que a Trezalt entrega é carregado de tensão, com guitarras que sabem quando avançar e quando recuar, uma base rítmica que sustenta o clima sem exageros, e uma produção que respeita o silêncio tanto quanto o barulho. Nada aqui parece aleatório. Cada virada, cada pausa, cada explosão sonora tem propósito.
As letras são outro ponto que fazem esse EP grudar na gente. Elas não soam grandiosas no sentido épico, mas sim no sentido humano. São pensamentos que parecem arrancados de conversas internas, aquelas que só aparecem quando o mundo desacelera e sobra você com você mesmo.
Entre as três faixas, 5AM foi a que mais nos atravessou. Existe algo muito verdadeiro em escrever sobre esse horário específico — quando a cidade ainda dorme, mas a mente não descansa. Quando o cansaço emocional vira quase físico. Quando você se pergunta quem está se tornando. O refrão é um soco silencioso:
“Eu não queria ser, o monstro dessa cidade
Eu não podia ser o mal desse filme de terror
Eu não sou assim eu sou tipo final feliz
Da história, que nós já conhecemos”
É impossível não se reconhecer nisso. Quem nunca teve medo de virar aquilo que a cidade exige? Quem nunca sentiu que precisava lutar contra uma versão endurecida de si mesmo só para continuar sendo alguém decente? 5AM fala sobre esse limite — entre sobreviver e se perder — de um jeito simples, direto e profundamente honesto.
Além da música, o trabalho visual da Trezalt também merece atenção. Os três visualizers lançados para o EP ampliam essa sensação de confinamento, introspecção e deslocamento. Eles não explicam as músicas, mas caminham junto com elas, criando um ambiente que reforça ainda mais a ideia de Quarto como espaço emocional e mental.
A Trezalt é uma dessas bandas que não gritam para chamar atenção, mas quando você entra no universo delas, fica difícil sair. Quarto não é um EP feito para tocar no fundo enquanto você faz outra coisa. Ele pede escuta. Pede presença. Pede silêncio ao redor.
Se esse é apenas um capítulo da história da banda, fica claro que ainda há muito para ser dito. E se o underground brasileiro continua se renovando, Santos definitivamente segue como um dos seus pontos mais interessantes de ebulição. A Trezalt não só faz parte dessa cena — ela ajuda a empurrá-la para frente, com sensibilidade, intensidade e identidade.
Esse EP é pequeno em duração, mas enorme em impacto. E a gente vai continuar olhando de perto, porque bandas assim não aparecem toda hora.




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