Tem gravadoras que lançam discos. Outras parecem ter um talento especial para apresentar artistas que chegam para sacudir tudo aquilo que acreditávamos conhecer. Mais uma vez, a Brisa Rec entrega um lançamento que não passa despercebido. Desta vez, quem assume esse papel é a banda maranhense Basttardz, que transforma “Tramas & Traumas” em um álbum que não pede licença para entrar. Ele simplesmente invade.

os primeiros segundos, a sensação é física. É aquele tipo de disco que faz você querer aumentar o volume, gritar junto com os refrões e deixar que as guitarras demolam qualquer tentativa de permanecer indiferente. Mas reduzir Tramas & Traumas apenas ao peso de suas guitarras seria injusto. Existe uma intensidade ainda maior escondida entre suas letras.

Ao longo de oito faixas, a Basttardz constrói um trabalho que encontra no hardcore, no punk e no rock alternativo o combustível perfeito para transformar indignação em música. O resultado é um álbum conceitual que conecta cada faixa em uma narrativa contínua sobre o mundo em que vivemos, abordando desigualdade, consumismo, violência urbana, saúde mental, religião e exclusão social com uma honestidade que raramente pede permissão para ser confortável.

Não há exagero. Não há maquiagem. Existe apenas verdade.

É justamente isso que torna o disco tão impactante. Cada música parece carregar uma urgência diferente, mas todas compartilham a mesma necessidade de dizer aquilo que muita gente prefere silenciar. Não são críticas lançadas ao acaso. São reflexões construídas com raiva, sensibilidade e uma enorme consciência social.

Entre todos os momentos do álbum, “Do Culto ao Lucro” surge como um dos capítulos mais devastadores. A faixa transforma a crítica à mercantilização da fé em um dos textos mais contundentes do disco, principalmente quando ouvimos:

“O que importa nesse culto é quanto vale a salvação, porque o preço da sua fé pode ser à vista ou no cartão. Pequenas igrejas, grandes negócios. Deposite seu dinheiro, seja nosso sócio.”

É impossível ouvir esses versos sem sentir um desconforto. E talvez seja exatamente esse o objetivo da Basttardz. Não provocar pelo choque vazio, mas pela coragem de colocar em palavras aquilo que muitos pensam e poucos têm disposição para dizer.

Essa honestidade atravessa todo Tramas & Traumas. O disco não tenta oferecer respostas prontas nem criar heróis. Ele apenas aponta para as feridas do presente e convida o ouvinte a encará-las de frente. É um trabalho que exige atenção, porque atrás da agressividade sonora existe uma enorme riqueza de discurso.

Gravado no DOC Studio, em São Luís, com produção de Alexandre Lourenço, o álbum também reforça a maturidade musical da Basttardz. A parceria com o selo Brisa Rec e as participações de DJ Alladin e Bruxo do Sertão ampliam ainda mais a identidade do projeto, enquanto a arte criada pelo ilustrador paraense Magno Costa (Ilustra Magno) complementa visualmente esse universo de tensão, crítica e resistência.

Formada em São Luís, a banda construiu sua trajetória levando sua música por todos os estados do Nordeste e também pela Região Norte. Agora, com uma turnê nacional prevista para percorrer as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, a Basttardz demonstra que sua mensagem está pronta para alcançar públicos ainda maiores.

E isso faz sentido. Porque discos como este não pertencem apenas a uma cidade ou a uma cena. Eles pertencem a qualquer pessoa que ainda acredita que a música pode incomodar, provocar e transformar.

No fim, Tramas & Traumas deixa uma sensação muito clara. Ainda existem bandas dispostas a fazer música sem filtros, sem medo e sem concessões. Bandas que entendem que guitarras pesadas podem carregar mensagens profundas e que um refrão pode ser tão poderoso quanto um manifesto.

A Basttardz não lançou apenas mais um álbum de hardcore. Lançou um disco que sangra, grita e obriga o ouvinte a sentir cada palavra. E essa talvez seja sua maior qualidade.



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