Há algum tempo, nós, da Divergent Beats, destacamos Samuel Amaro como um artista que merecia atenção. Existia alguma coisa na sua forma de escrever e construir atmosferas que chamava a atenção logo nos primeiros trabalhos. Agora, com “Músicas Surpreendentemente Comuns, Melancólicas e Feitas Para Dormir”, ele não apenas entrega o seu primeiro álbum, mas confirma aquilo que já imaginávamos: Samuel é um daqueles artistas que conseguem transformar o ordinário em algo profundamente especial.

E talvez essa seja justamente a maior qualidade deste disco.

Ele é bonito porque não tenta parecer maior do que é.

Pelo contrário, encontra força justamente nas pequenas histórias, nas frustrações silenciosas, nos dias em que o trabalho pesa mais do que deveria, nos términos que continuam ecoando muito depois do fim e naquele sentimento de caminhar pelas mesmas ruas perguntando se a vida realmente vai mudar algum dia. Samuel pega tudo isso e transforma em música com uma delicadeza rara.

Desde a primeira faixa, somos convidados a entrar completamente no universo que ele constrói. Existe uma sensação muito confortável em ouvir este álbum, como se ele abrisse a porta de um quarto onde tudo parece acontecer em câmera lenta. O bedroom pop, o indie contemporâneo e as influências do lo-fi hip-hop não aparecem apenas como referências estéticas. Elas criam um ambiente inteiro. Um lugar onde é possível desacelerar, respirar e simplesmente existir dentro das emoções que as músicas despertam.

É daqueles álbuns que você começa a ouvir e, sem perceber, já chegou ao fim querendo apertar o play outra vez.

Essa sensação de continuidade é um dos maiores méritos de “Músicas Surpreendentemente Comuns, Melancólicas e Feitas Para Dormir”. As oito faixas conversam entre si com naturalidade, formando uma narrativa muito coesa sobre o esgotamento, a timidez, o não pertencimento e a tentativa constante de continuar acreditando nos próprios sonhos, mesmo quando a rotina parece engolir qualquer possibilidade de mudança.

A estética vintage que atravessa o disco reforça ainda mais essa identidade. Há uma nostalgia muito presente em cada detalhe da produção, mas ela nunca soa como um exercício de saudosismo. Pelo contrário, funciona como uma moldura para histórias extremamente atuais. Samuel fala sobre a vida do trabalhador comum, sobre perder o emprego, sobre o cansaço que acompanha tantos jovens adultos e até sobre aquele momento em que a própria arte parece deixar de fazer sentido. São temas que poderiam facilmente cair no lugar-comum, mas que ganham outra dimensão graças à sensibilidade com que ele escreve.

Nós, da Divergent Beats, gostamos especialmente quando um artista consegue criar um universo sonoro que faz o ouvinte permanecer dentro dele mesmo depois que a música termina. Samuel faz isso com uma naturalidade impressionante. Há ecos de artistas como Ginger Root, Men I Trust e Mellow Fellow, mas em nenhum momento o álbum parece preso às suas referências. Existe personalidade suficiente para transformar essas influências em algo muito próprio.

A faixa que mais ficou conosco foi “Pra Não Morrer de Tédio”.

Ela resume muito bem o espírito deste trabalho e traz alguns dos versos mais bonitos do álbum. Logo no início, Samuel canta:

“Hoje eu tô no pique, quero um hype no meu som, envolver geral no meu balanço, não morrer de tédio, não ficar pra trás, nem morrer sendo mais um.”

É impossível ouvir essas palavras sem pensar na realidade de tantos artistas independentes que lutam diariamente para que sua arte encontre espaço. Mais do que falar sobre música, esse trecho fala sobre existir, sobre o desejo de deixar alguma marca no mundo e sobre a recusa em aceitar uma vida vivida apenas no automático.

Mais adiante, outro momento nos chamou profundamente a atenção:

“Tanto correr pra fazer coisas vão mudar, vejo cores que não vou acostumar em enxergar.”

Existe uma melancolia muito bonita nesses versos, mas também existe esperança. A sensação de que, apesar do desgaste e da repetição dos dias, ainda vale a pena continuar caminhando porque alguma coisa pode, sim, ser diferente.

Essa honestidade também está presente na forma como o álbum foi construído. Gravado em seu próprio home studio, em Maringá (PR), e produzido ao lado de Zero Pacelli, o disco preserva aquela proximidade típica do bedroom pop sem abrir mão de uma produção extremamente cuidadosa. Tudo parece ocupar exatamente o espaço que deveria, permitindo que as canções respirem e que as emoções nunca sejam escondidas atrás dos arranjos.

Outro detalhe interessante é a presença do alter ego Qumma, projeto através do qual Samuel conquistou reconhecimento internacional em colaborações com artistas como Takada Fu, do Japão, e Cozy Couch, da Dinamarca. Essa bagagem aparece de forma muito natural no álbum, influenciando timbres, atmosferas e escolhas estéticas que tornam a experiência ainda mais rica.

As participações de Natkym, em “Obcecado”, e Rxds, em “Refém”, além das contribuições dos músicos responsáveis pelas guitarras e baixos ao longo do disco, ampliam ainda mais esse sentimento de comunidade que atravessa todo o projeto. Nada parece colocado por acaso. Cada colaboração fortalece a identidade do álbum sem tirar o protagonismo de Samuel.

Depois dos primeiros passos dados com o single “Mariposa”, em 2018, e dos EPs “MORNO” e “SINTOMA”, este primeiro álbum representa um amadurecimento evidente. Não apenas na produção ou na composição, mas na confiança de um artista que finalmente encontrou uma linguagem capaz de traduzir exatamente aquilo que deseja comunicar.

“Músicas Surpreendentemente Comuns, Melancólicas e Feitas Para Dormir” é um título longo, curioso e quase irônico. Mas, depois da última faixa, ele faz todo o sentido. Porque este é um disco sobre pessoas comuns, sentimentos comuns e dias comuns. A diferença é que Samuel Amaro encontra beleza exatamente onde quase ninguém costuma procurar.

E talvez seja justamente por isso que este álbum seja tão especial.

Ele nos lembra que, às vezes, as histórias mais simples são também aquelas que permanecem conosco por mais tempo.



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