Existem artistas que conquistam pela técnica. Outros pela composição. Mas existem aqueles que conseguem fazer algo ainda mais raro: transportar o ouvinte para dentro do próprio universo logo nos primeiros segundos de uma música.

Foi exatamente isso que sentimos ao escutar “Quedó”, novo single de Erika Paz. Bastam as primeiras notas para que uma atmosfera completamente diferente tome conta de tudo. Há uma delicadeza profundamente latino-americana em sua sonoridade, mas também existe algo cinematográfico, como se cada acorde, cada silêncio e cada palavra fossem parte de uma cena cuidadosamente construída. Você não apenas escuta a música. Você passa a habitar o mundo que Erika cria.

Essa talvez seja a maior força de “Quedó”. Ela não tem pressa em revelar tudo o que carrega. Pelo contrário, convida o ouvinte a mergulhar lentamente em uma narrativa onde música, espiritualidade e poesia caminham lado a lado. O bolero aparece como a espinha dorsal da composição, mas nunca de forma previsível. As influências de artistas como Natalia Lafourcade e Rita Payés são percebidas com naturalidade, não como referências copiadas, mas como parte de uma identidade artística que encontra seu próprio caminho.

Nós, da Divergent Beats, gostamos muito quando uma canção consegue construir imagens enquanto toca. “Quedó” faz isso o tempo inteiro. Existe uma sensação constante de movimento, como se o vento atravessasse toda a composição. E, quando entendemos a inspiração por trás da obra, tudo passa a fazer ainda mais sentido.

A música revisita um dos itans, as histórias sagradas da tradição iorubá, trazendo para o centro da narrativa a figura de Iansã, orixá dos ventos, dos raios e das tempestades. Conhecida por sua força e por sua dualidade, Iansã representa a mulher capaz de unir delicadeza e coragem, terra e céu, vida e morte. Em um dos episódios revisitados por Erika, a entidade, após ser repreendida pelos pais por esbanjar seus tesouros, entrega tudo a Oxum e parte levada pelos ventos, libertando-se daquilo que já não fazia sentido carregar.

É justamente essa ideia de ruptura que atravessa toda a composição.

Mais do que contar uma história ancestral, Erika transforma esse itan em uma reflexão profundamente contemporânea. A narrativa é conduzida em primeira pessoa por uma mulher que olha para a própria trajetória, reconhece as dores, o apagamento e as limitações que lhe foram impostas e encontra força para romper com esse ciclo. “Quedó” fala sobre renascimento, mas sem romantizar o processo. Antes de recomeçar, é preciso atravessar a tempestade.

Essa sensibilidade aparece também na construção sonora. A produção abraça o bolero de maneira delicada e o envolve em uma atmosfera quase etérea, onde os violões, o clarinete, o violino, a viola e a percussão dialogam de forma orgânica, criando uma experiência extremamente imersiva. Tudo parece ocupar exatamente o espaço necessário para que a voz de Erika conduza a narrativa com sinceridade e intensidade.

Gravada na BBS_Lab, com engenharia de Daniel “Big” Jesi, produção, mixagem, masterização e percussão assinadas por Luan Sanches, a faixa demonstra um cuidado minucioso em cada detalhe. Os violões de Rita di Pace e Vinicius Bueno, o clarinete de Day Roque, além das cordas e do baixo que completam os arranjos, ajudam a construir um universo sonoro sofisticado sem jamais perder a intimidade que faz a música respirar.

Esse cuidado estético também se estende ao universo visual. O videoclipe, dirigido por João Karirí, promete expandir ainda mais a narrativa proposta pela canção, enquanto a capa criada por Letícia Muniz traduz visualmente essa dualidade entre delicadeza e força que acompanha toda a obra. É um projeto em que música e imagem parecem nascer da mesma intenção artística, fortalecendo ainda mais a experiência de quem se aproxima de “Quedó”.

A trajetória de Erika Paz ajuda a entender de onde vem essa linguagem tão rica. Nascida em Sousa, no sertão da Paraíba, ela construiu sua carreira transitando entre diferentes formas de expressão. Desde muito jovem esteve envolvida com produções culturais e, em 2014, fundou um coletivo cultural e feminista que promovia saraus e intervenções urbanas. Mais tarde, sua caminhada passou pelo teatro, pelo cinema e pela direção audiovisual, acumulando experiências que hoje aparecem de forma muito natural em sua música.

Talvez seja justamente por isso que “Quedó” tenha um caráter tão cinematográfico. Erika não pensa apenas em melodias. Ela cria cenas, atmosferas e símbolos que dialogam entre si. Cada elemento parece existir para ampliar a força da narrativa, tornando a escuta uma experiência que vai muito além do aspecto musical.

O lançamento do single também marca um momento importante em sua trajetória. No dia 2 de agosto, Erika sobe ao palco do Cantinho do Interior – Ponto de Cultura, em João Pessoa, para um show que promete unir sua vivência cênica à estreia dessa nova fase musical, reforçando ainda mais o diálogo entre performance, poesia e identidade latino-americana que atravessa “Quedó”.

Ao final da audição, fica uma sensação muito bonita de que algumas músicas não existem apenas para serem ouvidas. Elas existem para acompanhar processos. Para lembrar que recomeçar nunca é simples, mas continua sendo necessário. “Quedó” fala sobre deixar para trás aquilo que aprisiona, aceitar a força das próprias tempestades e compreender que, muitas vezes, é justamente o vento que nos leva para o lugar onde sempre deveríamos estar.

E Erika Paz faz tudo isso com uma delicadeza que permanece muito tempo depois que a última nota desaparece.



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