Mais uma banda potiguar chega destruindo, no melhor sentido possível, o universo da música independente brasileira e mostrando que a cena continua produzindo artistas cheios de personalidade. Foi exatamente isso que sentimos ao escutar “Desapegar”, single de estreia da Delirantes & Febris. É uma música que carrega uma nostalgia deliciosa, com influências muito claras do rock alternativo brasileiro dos anos 2000, mas que nunca soa presa ao passado. Pelo contrário, tudo ganha um toque contemporâneo, leve e extremamente autêntico. É daquelas canções que parecem familiares logo na primeira audição, mas que ainda assim conseguem surpreender.

Formada por Luaz (voz), Yuri Ucella (guitarra), Khalil Jobim (contrabaixo) e Diego Gabino (bateria), a Delirantes & Febris nasce com uma proposta muito clara: transformar situações comuns da vida em músicas que unem intensidade, criatividade e um humor inteligente. O primeiro single já apresenta exatamente essa identidade, combinando referências do rock alternativo brasileiro e da psicodelia em uma faixa que fala sobre um dos temas mais universais que existem: a dificuldade de esquecer alguém.

Só que a banda escolhe um caminho muito mais interessante do que o drama tradicional. Em vez de transformar o fim de um relacionamento em um grande sofrimento, “Desapegar” prefere rir das próprias confusões. A música entende que seguir em frente raramente acontece de maneira linear. A gente promete esquecer, tenta convencer a si mesmo de que conseguiu, mas basta uma lembrança para perceber que as coisas não são tão simples assim. Essa honestidade, tratada com ironia e leveza, faz toda a diferença.

Outro detalhe que adoramos é a decisão de gravar o single ao vivo. A produção preserva toda a energia da banda, deixando guitarras, baixo, bateria e vocais respirarem naturalmente. Não existe excesso de produção tentando esconder imperfeições. Pelo contrário, tudo soa orgânico, como se estivéssemos assistindo ao grupo tocar na nossa frente. Isso também prepara o terreno para o primeiro show da banda, que acontece durante o Febre Total, mostrando que a proposta da Delirantes & Febris sempre esteve ligada à força da experiência ao vivo.

Musicalmente, a faixa também conquista pela maneira como equilibra peso, melodia e refrões extremamente memoráveis. Existem momentos em que a música simplesmente toma conta da cabeça. Quando ouvimos aquele repetitivo “eu sei, eu sei, eu sei”, é impossível não entrar no ritmo. É um daqueles trechos que grudam naturalmente, criando uma dinâmica que faz a música crescer a cada repetição.

Pouco depois, outro momento assume completamente o protagonismo. O refrão com “eu quero desapegar” chega quase como uma tentativa desesperada de convencer a si mesmo de algo que, no fundo, ainda não aconteceu. É simples, direto e justamente por isso funciona tão bem. A Delirantes & Febris entende que grandes refrões não precisam ser complicados. Eles precisam ser sinceros. E esse é exatamente o caso aqui.

Nós, da Divergent Beats, gostamos muito quando uma banda estreia sem medo de mostrar quem realmente é. “Desapegar” não tenta impressionar pela complexidade. Ela conquista porque possui identidade. Existe personalidade nas guitarras marcantes, na base rítmica pulsante, na interpretação da Luaz e na maneira como a banda transforma situações completamente comuns em algo divertido, identificável e cheio de vida.

Também merece destaque o trabalho coletivo do grupo. A composição, assinada pelos quatro integrantes, reforça a sensação de unidade que a música transmite. A produção da própria banda, acompanhada pela preparação vocal de Simona Talma e pela mixagem e masterização da Feeling Produtora, entrega um resultado que preserva exatamente aquilo que torna a Delirantes & Febris especial: espontaneidade.

Talvez o mais interessante seja perceber que “Desapegar” não parece um primeiro passo tímido. Pelo contrário. A música chega com confiança, sabendo exatamente qual espaço deseja ocupar dentro da nova cena alternativa brasileira. Existe frescor, existe irreverência e existe aquela sensação gostosa de que ainda há muito para descobrir sobre essa banda.

Ao terminar a música, ficamos exatamente com a impressão que mais gostamos de sentir quando conhecemos um artista novo: vontade imediata de ouvir de novo. E depois mais uma vez. Porque cada audição revela pequenos detalhes que passaram despercebidos na anterior, enquanto os refrões continuam ecoando na cabeça muito depois do último acorde.

A Delirantes & Febris estreia mostrando que a autenticidade continua sendo um dos maiores diferenciais da música independente. E se “Desapegar” é apenas o começo dessa trajetória, vale a pena acompanhar muito de perto tudo o que essa banda ainda tem para oferecer.



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